

Ele fica preso pelo destino, mas encontra a liberdade para o corao!
Edward Coffey evitava o romance desde que deixara de acreditar no amor. Mas, quando machuca-se gravemente por causa de um beb, e recebe os cuidados e preocupao da me deste pequeno cupido, seus pensamentos comeam a mudar. Agora, Edward tinha uma perna quebrada e um corao correndo perigo!
Marissa Criswell  uma mulher livre e otimista que procura seu prncipe encantado. Sabia muito bem lidar com o mau humor de Edward... e pretendia domar aquela fera selvagem. Claro que Marissa desejava um pai para seu filho e um marido para si prpria...

              O Pequeno cupido		
                                    Just one kiss
                        Carla Cassidy


Digitalizao: Valria O.
Reviso: Denise Barros


PRLOGO


 Eles no so uma gracinha?  Samantha Curell indicava as trs crianas brincando na caixa de areia da escolinha.
Marie, a assistente de Samantha, assentiu com um movimento de cabea.
 Sempre brincam juntos. E conversam de um jeito como se tivessem sua prpria linguagem e estivessem resolvendo os problemas do mundo.
Claro que os pequeninos no estavam tendo discusses filosficas. Na verdade, as duas garotinhas se empenhavam em irritar o menininho.
Claire, de um ano e meio, disse a Julie, de dois anos, que seu pai a levara ao parque, na vspera. Julie aehou que tivera mais vantagem, pois seu pai lhe comprara uma boneca nova, que a abraava quando ela apertava sua barriga.
Ambas olharam para Nathaniel, o garotinho, que franzia a testa. s vezes, ele no gostava de garotas de jeito nenhum, sobretudo aquelas que tinham pais e faziam questo de alardear isso.
Ele empurrou um caminhozinho na areia, tentando fingir que no dava a mnima para o fato de no ter um pai.
As crianas continuaram com seu dilogo que s elas entendiam, mas que poderia ser traduzido por algo como isso:
 Meu pai  forte, Julie. s vezes, me ergue at o teto.
 O meu  policial e prende pessoas ruins. Ento ele  muito forte.  Julie recusava-se a ficar para trs.
Incapaz de resistir, Nathaniel abandonou o caminho de brinquedo.
 Vou arranjar um pai, e ele ser o melhor do mundo inteiro.
Claire riu, seus olhos azuis mostrando todo seu descrdito. Naquele momento, Nathaniel decidiu que, quando ele se casasse, seria com uma mulher de olhos castanhos.
 Onde voc vai arranjar um pai?  Claire quis saber.
 Ser durante as frias. Minha me vai me levar para viajar amanh. Quando eu voltar, vou ter um pai.
 Como vai fazer isso?  perguntou Julie. Nathaniel fez uma careta.
 Ainda no sei, mas pensarei em alguma coisa.
  S vou acreditar quando eu vir isso.  Claire empinou seu pequeno nariz.
 Pode esperar para ver! Vou ter um timo pai.  Nathaniel virou-se ao som da voz de sua me.
Marissa Criswell falava com a srta. Samantha. Elas estavam tendo uma conversa de adultos e Nathaniel no entendeu todas as palavras. Assim como os adultos no entendiam quando ele falava com seus amigos.
 Tenho de ir  disse Nathaniel para as meninas. Com todo o cuidado, saiu da caixa de areia.  Vejo vocs quando eu voltar. Ento vero o pai que vou trazer para casa.
Nathaniel correu para sua me, que abriu os braos para receb-lo.
 Ol, meu amor!  Marissa levantou-o no colo e beijou-lhe a bochecha.  Voc se comportou bem hoje?
Nathaniel aninhou-se  sua me, que sempre cheirava to gostoso.
Marissa sorriu para a srta. Samantha.
 Ns vamos indo. At a volta.
 Faam uma tima viagem.  A srta. Samantha sorriu.  At logo, Nathaniel.  Acenou para o menino, que balanou sua mozinha para ela.
Marissa se ps a carregar seu filho para o carro estacionado na frente do Berrio Hickory Dickory.
Nathaniel estreitou mais o abrao em torno do pescoo dela. Sabia que sua me no tinha ideia do que ele planejara. Mas um menino no devia crescer sem um pai. De um jeito ou de outro, precisava arranjar um. E conseguir um pai significava arrumar um marido para sua me. Quer Marissa gostasse daquilo,
quer no.
A animao fez com que Nathaniel se mexesse, impaciente, quando a me o colocou no assento do automvel. Ah, sim, ele tinha uma misso... e essa misso era encontrar um pai!




CAPTULO I

Pecaminoso.
Foi essa a palavra que ocorreu a Marissa Criswell quando ela se esticou, toda lnguida, na esteira para tomar sol.
Mason Bridge, Flrida, final de junho... Trs gloriosas semanas de dias ensolarados e mergulhos no mar. Trs gloriosas semanas sem trabalhar, que seriam dedicadas  mais pura diverso.
Marissa ergueu o rosto para olhar para o filho. Nathaniel estava sentado na ponta da esteira, jogando areia nos ps dela. Os cabelos loiros dele brilhavam  forte luminosidade.
O amor aqueceu o corao de Marissa, que agradeceu aos cus por sua av t-la presenteado com aquelas frias. Vinte e um dias com qualidade de tempo para seu filho, isso era o melhor de tudo. Sem hospital para si, sem escolinha para Nathaniel.
Olhando ao redor, viu a multido crescente armando guarda-sis. Ainda era cedo, mas logo a praia estaria lotada de gente procurando alvio do calor  beira-mar.
Marissa descansou a cabea para trs de novo e suspirou com prazer. Aquelas eram suas primeiras frias em anos. Mesmo grvida, tinha trabalhado at a
vspera de dar  luz, e voltara ao servio alguns dias depois que Nathaniel nascera.
Sua av fizera todos os preparativos. Conseguira folga do hospital para Marissa, reservara a passagem de avio e o hotel e presenteara a neta. Foi, com certeza, o melhor presente que Marissa recebeu na vida inteira.
Percebendo que Nathaniel no mais jogava areia em seus ps, Marissa abriu os olhos, de imediato.
 Nathaniel?  ela chamou o pequeno menino, que agora estava a quinze metros de distncia.  Volte aqui, querido.
Nathaniel no obedeceu. Em vez disso, levantou e afastou-se mais ainda. Logo em seguida, tornou a sentar-se no cho.
 Nathaniel!  Relutante, Marissa deixou a esteira, parando por um momento para tirar a areia do corpo.
Quando se virou outra vez para seu filho, um grito surgiu em sua garganta. Naquele exato instante ela viu o atleta, um homem com cala de agasalho, correndo em disparada e, pelo visto, no notara a criana loira em seu caminho.
O grito de Marissa saiu estrangulado, destruindo a paz da manh. No mesmo momento, o corredor viu Nathaniel. Tentou desviar, mas a manobra no teve sucesso, pois Nathaniel levantou-se e agarrou-lhe as pernas.
O homem caiu na areia, em cmera lenta, e Marissa escutou o estrondo devido a sua queda e viu a dura pancada de sua mo batendo em um pedao de madeira. Ele emitiu um som rouco de dor agonizante.
Nathaniel apontou para o rapaz de bruos e sorriu.
 Oh, meu Deus!  Marissa correu para at o local onde o atleta jazia, sua perna direita em um ngulo estranho que s podia significar alguma coisa quebrada.  Algum chame uma ambulncia!  pediu para a multido, e ento abaixou-se ao lado do desconhecido, que estava tentando sentar-se.  Fique deitado. Vou providenciar socorro.
Os olhos dele, azuis e brilhantes, contrastavam com a pele bronzeada. A barba escura, por fazer, junto com seus cabelos grossos e selvagens, davam-lhe o ntido aspecto de um ser  beira do abismo.
Marissa no podia ter certeza se era dor ou raiva que cintilavam naquelas pupilas, que as tornavam fria e duras como ao.
  Esse garoto tentou me matar!  disse ele, com os dentes cerrados.
Raiva, Marissa decidiu. Sem sombra de dvida, raiva.
  Sinto muito. Lamento mesmo.  Quando ela olhou para a mo que batera contra a madeira, suspeitou que ele tinha alguns dedos quebrados tambm.
Um imenso remorso a invadiu. Tudo acontecera por falha dela. Tudo culpa dela. Deveria estar cuidando de Nathaniel mais de perto.
 O que voc sente muito?  0 rosto dele franzia-se em caretas de sofrimento.
 Foi meu menino... meu filho.
 Qual o nome dele? Exterminador?  Ele gemeu. Marissa corou e ajoelhou-se ao lado do estranho.
Quando o rapaz urrou de novo, ela se deu conta de que seu joelho estava em cima da mo boa dele.
 Oh! Desculpe-me!  Ela ergueu a perna to rpido que acabou por atingir a costela do homem.
  Jesus, moa! Apenas afaste-se, antes que voc me mate!
Qualquer futura conversa foi cortada pela chegada dos paramdicos, que o colocaram numa maca e o levaram para dentro da ambulncia.
Marissa apanhou suas coisas e saiu correndo da praia com Nathaniel. Em seu carro alugado, seguiu a ambulncia at o hospital local.
 No posso acreditar que isso aconteceu  resmungou para si mesma, quase encostando no pra-choque do grande carro branco.
Como uma manh que tinha comeado to maravilhosa de repente transformara-se em algo to ruim? Pelo menos, a ambulncia no estava com a sirene ligada, o que significava que ele no corria risco de vida.
Nathaniel permanecia alheio ao caos que havia criado. Estava tagarelando sozinho, sorrindo, como se estivesse se divertindo com a cena.
Marissa no estava nada contente. Ficara apavorada. E se fosse pior que uma perna quebrada? E se o moo decidisse process-la? Se fizesse isso, decerto tiraria dela tudo que tinha de valor.
Marissa sorriu com tristeza por seus pensamentos. Tudo o que possua era um pouco mais de duzentos dlares no banco, e talvez uns cem no cofre de porquinho de Nathaniel, no tinha casa prpria, e teria uma sorte incrvel se seu velho automvel durasse mais mil quilmetros.
Seu sorriso triste esvaiu-se quando lembrou-se dos ferimentos dele. E se o homem fosse um corredor de maratona das Olimpadas? Como continuaria seu treinamento com um gesso na perna?
Ou talvez fosse um segurana de uma das muitas boates da regio, conjeturou ela, recordando seus ombros largos. O rapaz contaria s pessoas que fora aniquilado por uma criana de dois anos?
Com uma perna e alguns dedos quebrados, no importava qual fosse sua profisso, ele estaria mais do que prejudicado por suas leses. Estaria incapacitado. A culpa mais uma vez a dominou. Se no tivesse fechado os olhos nem por um breve momento...
A ambulncia parou na entrada do pronto-socorro do hospital. Marissa, sem demora, deixou o carro no estacionamento, de visitantes. Vestiu uma canga, pegou Nathaniel e correu para dentro.
Chegou bem na hora de ver o homem sendo levado na maca atravs de portas duplas para dentro do que presumiu ser uma sala de curativos.
Por incrvel que parecesse, a sala de espera estava vazia. Marissa segurou Nathaniel no colo e sentou-se em uma das cadeiras. No sabia ao certo o que fazer, mas precisava assegurar-se de que o desconhecido estava bem e pedir desculpas mais uma vez pelo louco acidente que se dera.
Ela compreendia que deveria arcar com a conta do hospital, e s de pensar nisso sentia nuseas. Tratamento de emergncia nunca era barato.
Contudo, teria de dar um jeito. Odiaria ter de apelar para sua av, que j tinha sido generosa o bastante ao lhe proporcionar aquelas frias.
Esfregando a mo na testa, tentou no pensar no qu uma conta extra faria com sua situao financeira. Como me solteira, as finanas eram sempre uma fonte de pnico.
Suspirando, abraou Nathaniel e concluiu que teria de acertar as coisas com o homem que seu filho ferira.
Edward Coffey fazia caretas enquanto o Dr. Edmund Hall engessava os quatro dedos de sua mo direita. Sua perna j estava engessada at a metade da coxa.
No podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Como de costume, o destino lhe dava um outro chute na canela. J deveria ter se acostumado com isso.
 Ento, vai me dizer como isso ocorreu?  perguntou Edmund, terminando o trabalho.
 Voc no acreditaria se eu lhe contasse. Edmund sorriu.
 Muito poucas coisas me causariam espanto, em se tratando da sua pessoa.
Os dois homens eram amigos h anos.
 Deixe-me adivinhar, Edward... Resolveu flertar uma garota e, quando ela reparou, decidiu destruir voc com a bolsa.
Edward o encarou, mal-humorado.
 Errado.
 Ento estava bbado e no se lembrou da sequncia de degraus ao sair de sua casa.
 No fico bbado. Edmund suspirou, incrdulo.
 Ora, vamos! E raro v-lo sbrio.
 Voc sabe pouco a meu respeito, Edmund. Tenho me mantido afastado das garrafas faz um ano. E, se quer saber, eu estava correndo na praia quando uma criana agarrou minhas pernas. Ca, tinha um pedao de madeira jogado na areia... e aqui estou eu.
 Quantos anos tem a tal criana? Edward deu de ombros.
 Era um garoto grande. Talvez cinco ou seis anos.  No queria dizer a Edmund que aquele que o derrubara no passava de um beb.  Acabou?
Edmund assentiu com um movimento de cabea.
 Quer uma receita de analgsicos?
 No.
 Edward, no h necessidade de ser duro. Voc vai sentir dor.
 Estarei bem  respondeu Edward, embora sua perna e seus dedos doessem, assim como cada msculo que ele possua.
  um sujeito teimoso, Edward Coffey.  Edmund respirou fundo.  Pus um salto no gesso, mas voc precisar de uma muleta para os primeiros dias. Deixe-me lhe dar um par, ento depois poder seguir seu caminho. O mdico saiu da sala.
Edward observou o gesso em sua perna. Que maravilha! Aquilo era magnfico, para dizer o mnimo! Tinha mais casos para trabalhar agora do que durante toda sua histria como detetive particular. Como poderia passar despercebido com aquele enorme elefante branco grudado ao corpo?!
O acidente inteiro tinha sido estranho. Edward podia jurar que o menino tinha agarrado sua perna de propsito.
Uma viso da me do garoto preencheu sua mente.
Olhos verdes horrorizados, uma nuvem de cachos loiros e um corpo magro e pequeno ornamentado por um biquini azul. Parecia um anjo. E como filho um beb demolidor, pensou ele, irritado.
 Aqui esto.  Edmund retornou com as muletas.  Quer que eu lhe mostre como us-las?
 Acho que posso imaginar como   respondeu Edward, com um toque de sarcasmo. Quo difcil poderia ser usar muletas?
 Pode precisar de algum para auxili-lo por alguns dias, pelo menos. Manter a mobilidade  difcil com a perna quebrada. E vai descobrir que ter uma nica mo  bem complicado, tambm. Maria ainda est limpando sua casa?
  Sim, por qu?  Edward levantou-se, cambaleando, tentando se entender com as muletas.
  Talvez voc possa pedir que ela fique l por alguns dias.
 De jeito nenhum, Edmund! Maria acha que sou a pior pessoa do mundo. Apenas faz faxina para mim porque pago uma diria obscena, e ela s faz o que tem vontade. Alm disso, no gosto dela. Edmund achou graa.
 Voc no gosta de ningum.  Pegou o seu bip do bolso do jaleco.  Tenho uma chamada.
Edmund deu um tapinha nas costas de Edward.
 Marque uma hora em meu consultrio dentro de alguns dias, para que eu possa examin-lo.  Sem esperar resposta, o mdico virou-se e desapareceu.
Edward o observou partir e encostou-se na parede por um momento. A cada minuto, a dor em sua perna e na mo aumentava.
Respirou fundo, colocou as muletas embaixo do brao e tentou atravessar as portas duplas.
Ficou bravo quando precisou de trs tentativas antes de girar a maaneta e atravessar a soleira. Mas estacou quando viu a mulher e o filho dela.
Marissa corou, e Nathaniel bateu palmas. Os olhos dela se arregalaram quando viu o gesso na perna dele, sua mo engessada e a pele esfolada de seu ombro.
- O que voc est fazendo aqui?!
Como se ela e o filho j no tivessem causado danos suficientes. O menino o tinha derrubado, e ento a me se aproximara para mat-lo.
 Vim ver o que posso fazer para ajudar. Sinto muito quanto a isso! Claro que deve haver alguma coisa que eu possa fazer... Talvez pagar as despesas mdicas?
 Tenho plano de sade  afirmou, rspido. "Alm disso, essa maluca no parece ter condio de pagar nem um copo de gua para mim." Suas sandlias de praia eram velhas, e a canga estava desbotada por um milho de lavagens.
Marissa no parecia ser uma tpica turista, que desfilava a ltima moda pela pequena cidade charmosa, carregando diamantes cujo valor poderia alimentar uma famlia de quatro pessoas por meses.
Uma parte dele a observou como um detetive o faria. A outra a analisava como homem.
Os cabelos dela pareciam macios e sedosos e emolduravam suas feies delicadas. O pare no escondia muito suas belas curvas. Era bonita, e o fato de fit-la provocou uma estranha onda de calor em seu baixo-ventre. Aquilo o aborreceu. No momento, tudo o irritava.
 Por favor... Deve haver alguma coisa que eu possa fazer para consertar isso, Sr. Coffey.
Ele franziu as sobrancelhas.
 Como sabe meu nome?
 Uma das enfermeiras me informou.  Marissa trocou o menino de um quadril para o outro.  Sou responsvel por seus ferimentos. Tem de me deixar fazer algo.
 Moa, voc no pode consertar isso. Se estivesse prestando ateno a seu filho, nada teria acontecido.
Edward deu alguns passos desajeitados em direo  sada.
Marissa correu para abrir a porta, e a bateu na perna s dele. Ele uivou.
 Ah, perdo!  sussurrou, horrorizada. Edward meneou a cabea, com medo de deixar escapar uma imprecao, e saiu para a luz do sol.
Marissa e Nathaniel seguiam atrs.
  Tenho um monte de relatrios para digitar, o que vai ser divertido, j que s tenho uma mo funcionando. Estou no meio de casos que requerem minha mobilidade. No h nada que voc possa fazer, a menos que tenha uma varinha de condo e possa me curar instantaneamente.  Cada palavra saiu de sua boca como balas de revlver.
 Eu sei digitar.
 Sorte sua.  Edward desceu na calada, distanciando-se dela. Mais uma vez,
  Posso fazer seus relatrios. Marissa colocou-se ao lado dele.
Edward notou que tinha um delicioso aroma floral, e isso lhe causou um frio no estmago.
 No quero que digite meus relatrios, moa. Na certa voc quebraria meu computador.
 Como voc vai para casa?
A pergunta fez com que Edward parasse. S estava andando para livrar-se dela, mas agora ponderava a respeito. Fora correndo de sua casa at a praia, mas no havia como correr de volta.
 Chamarei ura txi.
 Isso  ridculo! Estou com o carro bem aqui, e posso lev-lo. Por favor...  Marissa colocou uma mo no brao dele, com olhar splice.  Deixe-me fazer pelo menos isso por voc.
Edward estava sofrendo muito para discutir. Tudo o que queria era chegar ao aconchego de seu lar e colocar seu corpo dolorido na cama.
 Certo, moa.  Ento Edward olhou para o pequeno nos braos dela.  Contanto que voc deixe esse perigo ambulante longe de mim durante o percurso.
A face dela ruborizou, tornando-a ainda mais linda, e seus braos se estreitaram em volta da criana.
 Ele no  nada disso! Meu filho  um bom garoto.
 Sim. Ouvi dizer a mesma coisa sobre pitbulls. O rubor dela acentuou-se, e dessa vez Edward achou que poderia ser ira o que coloria seu rosto. Marissa soltou a respirao de modo bem audvel e apontou para o estacionamento.
 O automvel est logo ali. Irei busc-lo. Edward assentiu e se encostou na parede do prdio, imaginando se ela conseguiria lev-lo embora sem causar nenhuma catstrofe. No podia evitar uma sensao apavorante de morte iminente.


CAPTULO II

Marissa levou vrios minutos para organizar o carro e abrir espao para Edward, Colocou a sacola de fraldas ao p de Nathaniel no assento traseiro. Ento, recuou ao mximo o banco do passageiro e reclinou o encosto. Edward Coffey era alto, e precisaria do mximo de espao para sua perna. Um momento depois, Marissa parou na calada e saltou do automvel para ajud-lo. Mas Edward acenou para det-la.
 Apenas pegue isso  disse ele, entregando-lhe as muletas.  Prefiro entrar a sem a sua ajuda. E mais seguro.
Edward escorregou no assento e gemeu quando puxou a perna engessada para dentro. Marissa entrou e colocou as muletas entre eles.
 Voc est bem?  ela quis saber, preocupada. Mesmo com um corte na testa, Edward era bonito de matar. O aroma dele encheu o interior do veculo, um cheiro masculino que era tanto atraente quanto perturbador.
 Apenas me leve para casa  pediu ele. Seu banco estava to reclinado para trs que sua cabea quase encostava na de Nathaniel.  Ele est bem preso no cinto, no est?
  claro.  Marissa ligou o motor.  Voc tem de me ensinar o caminho.
  Saia do hospital e vire  esquerda.  Edward cerrou as plpebras.
 A propsito, meu nome  Marissa. Marissa Criswell. E aquele garoto no banco de trs  meu filho, Nathaniel.
  Prefiro pensar em voc e seu filho como meu pesadelo pessoal.
Marissa enrubesceu, mas lembrou-se de que a rudeza dele era, sem dvida, devida ao fato de que estava com dores.
 Tem esposa, sr. Coffey? Algum que possa cuidar de voc?
Ele abriu os olhos.
 Uma esposa seria meu outro pesadelo pessoal. Estou sozinho h cinco anos, e  assim que gosto de estar. Simplesmente me leve para casa, e eu ficarei bem.
Muito bem... Ele no era casado, e, pelo jeito, ningum significativo. Marissa franziu o cenho, perguntando-se se Edward tinha alguma ideia real de como uma perna e dedos quebrados poderiam complicar at mesmo as coisas mais simples da existncia humana.
 Voc mencionou que tem relatrios para digitar e casos para cuidar. Que tipo de trabalho faz, sr. Coffey?
  Sou bailarino. Acha que poderei danar com a perna quebrada?
 No precisa ser cnico!
Edward esfregou na testa com a palma.
 Sou detetive particular.
 Verdade?! E  bom nisso?
As pupilas dele brilharam, e um pequeno sorriso curvou o canto de seus lbios.
Marissa sentiu o poder daquele gesto devastador at na sola de seus ps. Apertou as mos no volante e tentou ignorar como o sorriso dele a afligira em um nvel feminino especial.
 Sou o melhor.  E tornou a ficar srio. Em seguida, fez uma careta to ameaadora que Marissa decidiu esquecer o assunto.
Nos minutos seguintes, Edward apenas se disps a indicar-lhe o trajeto. Quando ele apontou uma pequena estrada, com rvores altas e vegetao pesada, um pequeno tremor de ansiedade causou nela um arrepio. Marissa no podia ver casas, nenhuma pista de civilizao por perto. Passaram por uma rvore com uma placa dizendo: "Proibida a entrada".
Seria possvel que Edward estivesse levando-a para a floresta para estrangul-la? No sabia nada sobre aquele homem, exceto seu nome. Talvez ele quisesse quebrar a perna dela s para ensinar-lhe uma lio ou, quem sabe, descarregar sua ira, mas fitou-o e relaxou. Mesmo com Nathaniel nos braos, Marissa sabia que poderia correr mais rpido do que um manaco zangado de muletas. Alm disso, o semblante de Edward estava muitssimo plido, e parecia que apenas sair do carro j seria um imenso desafio para ele.
A mata de cada lado da estrada desapareceu e, de repente, eles se viram no que parecia ser uma praia particular, com o oceano azul  esquerda.
Edward indicou a nica casa, com uma estrutura de vidros na frente que parecia estar aderida  encosta do morro.   aqui.
Marissa freou e desceu, pegando as muletas. Ento, muito rpido, deu a volta at a porta do passageiro para ajud-lo a sair.
  Gostaria de dizer que foi um prazer, mas no foi.  Edward apoiou-se nas muletas e comeou a andar em direo  residncia. Parou, olhando a escada ngreme que conduzia  porta.
   melhor que eu ajude.  Marissa olhou Nathaniel, que estava bem preso no cinto, e seguiu at Edward, pegando uma muleta.  Apie-se em mim. Ficar mais fcil.
Edward hesitou por um momento, relutante em aceitar a oferta dela,
 Ou voc pode ir sozinho e se arriscar a cair, mas, nesse caso, no ter ningum para culpar, exceto a si prprio!  Marissa comeava a ficar impaciente.
 E se eu cair com sua ajuda? Poderei culp-la?
  isso mesmo.
Edward assentiu e passou um brao em volta do ombro dela. Marissa colocou uma das mos nas costas dele para firm-lo. A pele dela ficou mais quente quando Edward se encostou nela. Marissa sentiu o aroma de uma colnia ctrica.
Fazia muito tempo que no ficava prxima de um homem to absurdamente masculino. Apesar de sua preocupao com Edward, um forte prazer a tomou com o contato ttil naquelas costas musculosas.
 No est com medo que seu anjinho v destruir o carro enquanto voc me ajuda?
  No seja ridculo! Nathaniel tem apenas dois anos, e,  lgico, no  um criminoso!
Subiram mais dois degraus.
 Ah, a me  sempre a ltima a admitir que h um problema... Marissa parou.
 Sr. Coffey, voc no me parece um homem estpido. Entretanto, devo lhe dizer que  perigosssimo falar mal do filho de uma mulher quando ela o est ajudando a subir uma escada to ngreme.
Ele virou-se e a encarou, surpreso.
 Nossa!  Uma ameaa de sorriso brilhou no rosto dele.
A respirao de Marissa ficou presa no peito.
A impresso foi de que, por baixo daquela barba mal-feita e sem as linhas de dor que comprimiam suas feies, Edward Cofly teria o tipo de traos que poderia destruir mais que um corao.
S o contorno de seus lbios podia fazer uma mulher pensar em lenis de seda em uma noite de vero e em braos e pernas entrelaados no desejo.
Marissa fez uma expresso interrogativa, imaginando se estava sob efeito de uma insolao. Decerto seria a nica explicao para suas conjecturas alucinantes.
Mais uma vez, continuaram a rdua escalada. Quando chegaram ao topo, Marissa entregou-lhe a muleta e soltou-se dele.
 Ficar bem mesmo?  indagou, preocupada. Mais uma vez as faces dele ficaram plidas demais, e uma leve camada de suor apareceu em sua testa.
 J lhe disse que sim.  Edward virou-se, entrou e fechou a porta no nariz dela.
Marissa lutou contra o impulso de esmurrar a madeira e dizer-lhe o quanto ele era grosseiro. No entanto, lembrou-se de que era normal que a dor deixasse as pessoas mal-humoradas.
Como enfermeira, ela vira a dor transformar pessoas boas e inteligentes em criaturas enlouquecidas e irracionais.
Desse modo, voltou para o carro, e sorriu para seu filho pelo espelho retrovisor.
 Bem, meu amor, eu ofereci ajuda, mas o moo recusou. Suponho que nossa responsabilidade acaba por aqui.
Nathaniel deu aquela risadinha infantil que sempre mexia com a alma de Marissa.
Quando ligou o motor e deixou a casa de Edward Coffey, pensou se Bill pensava nela de vez em quando, se recordava do filho deles. Perguntou-se se ele se dera conta do quanto havia perdido quando escolheu afastar-se dos dois.
Em direo ao hotel, resolveu esquecer Bill. No tinha notado, na poca do namoro, quo imaturo e egosta ele era, at que engravidou e Bill resolveu fugir. Marissa no precisava de um garoto tolo e assustado em sua vida, e Nathaniel, sem dvida, no necessitava de um irresponsvel como pai.
Era melhor a ausncia da figura paterna para Nathaniel do que crescer com um pai imaturo e sem disposio para assumir responsabilidades.
Bill entrara e sara do caminho de Marissa com seus caprichos, comprando-lhe presentes caros, levando-a a restaurantes finos, quando tudo o que ela queria e precisava era seu amor.
Marissa tinha de deix-lo fora de seu arquivo mental. E agora havia outro homem para manter a uma boa distncia: Edward Coffey.
Mas com Edward as coisas pareciam no querer ser to simples assim. Enquanto Marissa e Nathaniel jantavam num restaurante perto do hotel, ela se perguntava o que Edward estaria jantando. Com sua mo engessada, at mesmo fazer um sanduche seria complicado.
"No  problema meu", ela decidiu. J oferecera ajuda, e ele recusara. De seu breve encontro, Marissa teve a impresso de que Edward Coffey era um ser que tinha dificuldade em pedir ajuda sob quaisquer circunstncias.
Horas depois, acomodada em sua cama, com Nathaniel dormindo no bero que o hotel providenciara, ela, mais uma vez, preocupou-se com Edward.
No podia evitar sentir-se responsvel por ele e por suas leses. E se Edward tentasse descer aquela escadaria sozinho? Isolada como era a casa, poderia levar dias at que algum o encontrasse.
Quando, enfim, adormeceu, teve um pesadelo com Edward Coffey perseguindo-a na praia. Mas no sonho era a perna dela que aparecia engessada. Nathaniel estava sentado na areia, batendo palmas e rindo cada vez que Edward tentava agarr-la.
Marissa acordou com um sobressalto, logo aps o amanhecer. A noite inquieta a fez perceber que no conseguiria continuar aproveitando suas frias, sabendo que um homem sofria pelas aces de seu beb. Sua conscincia no permitiria aquilo.
Por volta das oito horas, ela e Nathaniel, j vestidos, seguiam a caminho da casa de Edward.
Em uma sacola, Marissa levava todo o necessrio para um desjejum. No conhecia um ser vivo que negaria ovos, po fresquinho e presunto.
Quando parou diante da residncia de Edward, ficou surpresa ao ver um velho Ford vermelho estacionado. Permaneceu sentada por um momento, pensando se deveria ou no subir. Afinal, o automvel indicava que ele no estava sozinho.
Titubeando sobre o que fazer, viu a porta da frente se abrir e uma senhora idosa, de cabelos grisalhos, sair. Ela desceu at a metade da escada e virou-se quando Edward apareceu atrs dela.
 No volte mais, Maria! Voc est despedida!  gritou ele, assustando as gaivotas pousadas na praia.
 Est bem.  Maria sorriu.  Estou despedida.  E continuou a descer os degraus.
Edward bateu a porta. Quando Maria correu para seu velho Ford, ofereceu um amplo sorriso para Marissa.
 Cuidado. O homem est uma fera, hoje.
 Obrigada...  Marissa se surpreendeu com a amabilidade da mulher. Tirou o menino do assento, pegou os suprimentos, sua bolsa e a sacola de fraldas e comeou a subir at a entrada.
 Uma fera enlouquecida  repetiu Maria, l de baixo. Quo pior Edward poderia estar do que na vspera? Marissa chegou ao alto e bateu na porta.
 V embora! J disse que est despedida! Marissa respirou fundo e tornou a bater.
 Sr. Coffey? Sou eu, Marissa!
A porta foi puxada com violncia, e Marissa quase caiu em cima dele.
 O que acha que est fazendo aqui?!
Era bvio que Edward tivera uma noite dura. Seus cabelos estavam todos alvoroados, e a barba que escurecia seu rosto e o queixo parecia mais grossa. Seus olhos azuis mostravam profundas olheiras. A aparncia dele reacendeu a culpa que Marissa sentia.
 Vim fazer o caf da manha para voc. Edward a olhou como se ela tivesse enlouquecido.
Marissa ergueu a sacola.
 Eu... eu... eu trouxe tudo de que preciso. Nathaniel se mexeu nos braos dela e apontou para Edward, que fez uma careta irritada.
 O que voc trouxe?  ele indagou, frio.
 Presunto, ovos, biscoito, pes e leite.
Edward hesitou um momento e ento desencostou-se da porta.
 Entre.
Marissa adentrou a casa e prendeu a respirao. A primeira coisa que tirou seu flego foi a vista. A sala de estar possua uma parede de vidro, oferecendo um panorama esplndido do mar.
A segunda foi o caos em que o ambiente se encontrava. A superfcie da mesinha de centro estava coberta de jornais, latas de refrigerante e uma variedade de embalagens de comida pronta.
A mesa do computador em um canto era uma extenso da mesinha de centro. Mais embalagens de comida, garrafas de suco e pilhas de papis de trabalho cobriam a rea inteira. O carpete precisava urgente de aspirao.
 No repare na baguna  disse ele, mergulhando no sof, onde um travesseiro e um cobertor o esperavam.  Acabei de despedir minha faxineira.
 Acho que a encontrei no caminho...
 Maria deveria trabalhar aqui hoje, mas passou para me dizer que tinha um jogo de bingo importante e que sua irm maluca lhe dissera que hoje era seu dia de sorte.
 Ser demitida no  nada bom, sr. Coffey. Mas ela no me pareceu aborrecida por perder o emprego.
Edward suspirou e passou os dedos entre os cabelos.
 Ah, no ficou mesmo! Maria me provocou de propsito para que eu a despedisse, porque sabe que se eu cham-la de volta e ela recusar, acabo oferecendo um aumento, e ento a danada volta.
Edward podia estar furioso, mas, pelo menos, mostrava-se mais falante do que no dia anterior.
 Vejo que trouxe o "Esquadro da Morte", sra. Criswell. Voc no tem um marido para cuidar dele, enquanto cumpre sua misso de misericrdia? 
 No. No tenho.  Marissa no estava a fim de conversar sobre sua vida pessoal, e decidiu assumir o controle imediato da situao.  Por que no deita e descansa, enquanto preparo uma boa refeio?
Edward assentiu com um movimento de cabea, reclinou-se no sof e apontou o caminho atrs dela.
 A cozinha  por ali.
Marissa deu um gemido de pavor quando entrou l. Era grande, aconchegante e bagunada demais. A pia estava cheia de loua suja, e os balces, com restos de comida por todos os lados.
"Que falta de higiene!" Aquela desordem no era resultado de um homem com uma perna e dedos quebrados tentando alimentar-se. Edward no poderia ter feito aquilo nas ltimas vinte e quatro horas. Teria levado no mnimo trs ou quatro dias para alcanar aquela condio negligente.
Marissa colocou Nathaniel no cho e deu a ele vrios de seus brinquedos favoritos, que trouxera consigo. Com o garoto feliz e entretido, deu incio a seu trabalho.
Edward acabara de passar a pior noite de sua vida. Nunca fora bom em ficar doente. Edmund uma vez lhe dissera que ele era o pior paciente da face da terra.
Edward no podia evitar isso. Odiava sentir-se fraco, intil. Fechou os olhos. O som da atividade vindo da cozinha era, para seu espanto, muito confortvel.
Sua primeira inclinao quando Marissa chegara fora expuls-la. Sabia que fora o remorso o que a enviara l. Afinal, o filho dela havia, de propsito, acabado com ele. Edward no queria suavizar a culpa de Marissa, nem queria nenhum tipo de relao com ela e com a criana.
Mas aquele primeiro impulso de mand-la embora fora desafiado no momento em que Marissa mencionou o desjejum. Edward no comera nada desde que chegara, na vspera, e estava faminto.
Sem marido, ela falara. Ento, onde estaria o pai do menino? No que se importasse. No que quisesse mesmo saber.
Edward olhou para a porta da cozinha. Talvez devesse ir l supervisionar.
Tomada a deciso, levantou-se do sof e, com suas muletas, arrastou-se ela sala, e logo viu Marissa lavando loua e o menino sentado o cho, na certa pensando em sua prxima vtima.
Marissa virou-se com o som da aproximao dele e lhe lanou um sorriso ligeiro.
 Est com medo de que eu esteja atrs dos talheres de prata dos Coffey?
 Nem um pouco.  Edward sentou-se em uma das cadeiras.  Se est  caa de prataria ou porcelana chinesa, veio para o lugar errado. S achei melhor certificar-me de que o diabinho da Tasmnia no ponha fogo em tudo, enquanto voc no est olhando.
Edward franziu o cenho quando Nathaniel bateu no fundo de uma panela vazia com uma colher de pau. Bateu vrias vezes, e sorriu para Edward, como se esperasse um cumprimento pelas suas habilidades rtmicas.
Edward evitou seu olhar, e em segundos a criana perdeu o interesse pela panela e comeou a brincar com um pote de plstico. Edward se fixou em Marissa, limpando a baguna que Maria deveria estar organizando naquele dia.
 Voc no tem de limpar tudo. Marissa virou-se e tornou a sorrir para ele.
 No me importo. No consigo trabalhar no meio da desordem. Alm disso, sinto-me de certo modo responsvel por voc ter despedido sua empregada esta manh.
  Por qu?
Encostando-se no balco, Marissa deu de ombros.
 Voc talvez no a tivesse despedido se no estivesse de mau humor por causa de seu estado fsico.
Edward a observou com ateno, surpreso com sua audcia em dizer que ele estava mal-humorado.
 Isso  tolice, fique sabendo. No estou mais azedo do que o normal. Alm do mais, esta  a sexta vez que demito Maria nos ltimos trs anos. Ela sempre me irrita. As pessoas me irritam.
 Ainda assim, me sinto um pouco responsvel  repetiu, virando-se para a pia. Marissa colocou uma xcara de caf fresco na mesa, na frente dele.  Aqui est. Talvez a cafena possa melhorar sua disposio.
 No h nada errado com minha disposio. Gosto muito de ser mal-humorado.
 Mau molado!  Nathaniel encarou Edward. Seus olhinhos azuis cintilavam de felicidade. Claro que o garoto estava contente. A perna de seu desafeto estava quebrada, decidiu Edward.
Ele bebericou seu caf e assistiu a Marissa trabalhando. Ela usava uma cala jeans e uma camiseta azul-marinho de manga curta. O azul profundo de sua blusa acentuava seus cabelos claros e encaracolados. A luz do sol, entrando pela vidraa e brincando com os fios loiros, formava uma aurola dourada em volta de sua cabea. Sim, certo. Um anjo misericordioso com um menino traquinas ao lado. Ainda assim, tinha de admitir que o garoto no tentava fazer mais nada errado. No abria armrios ou subia nos mveis, como a maioria das crianas. Parecia contente em estar sentado no cho, brincando com vrios utenslios culinrios que sua me lhe dera.  Voc mora por aqui?  Edward quis saber. Mason Bridge era uma cidade pequena. Edward achava que conhecia, pelo menos de vista, a maioria dos cidados.
 No. Estamos viajando de ferias. Somos do Kansas.  Marssa no parou de trabalhar enquanto falava.  Chegamos ontem de manh.
 Por que vieram para c? A maioria dos turistas nem conhece Mason Bridge e, em geral, vo para Miami ou para outras praias mais populares da Flrida.  Minha av visitou uma amiga aqui uma vez, e achou o lugar muito charmoso. De qualquer forma, tnhamos acabado de nos instalar na praia quando voc sofreu o acidente.
 Quer dizer, quando seu filho tentou me matar. 
Aquilo prendeu toda a ateno dela. Marissa virou-se, e seus olhos verdes faiscavam de irritao.
 O nome dele  Nathaniel. Ele no  nenhum Demolidor ou o diabnho da Tasmnia. Nathanel Criswell. E a atitude dele, com dois anos de idade, no foi nada mais que um acidente!
Marissa parecia lindssima com seus olhos brilhando e seu rosto corado de raiva. Edward imaginou se seus olhos brilhariam assim quando ele a beijasse. Endireitou-se na cadeira, perguntando-se de onde viera aquela ideia. No tinha inteno de beijar Marissa. No pretendia beijar ningum. Gostava de sua vida sem complicaes... e mulheres, sempre, traziam complicaes.
Mas, embora no pretendesse beij-la, no podia evitar de admirar as costas dela enquanto cuidava da refeio. Tinha pernas longas e bem torneadas e movia seus quadris de modo provocante ao bater os ovos e coloc-los na frigideira.
 Nathaniel? Que tipo de nome  esse?  perguntou ele.
Em algum lugar no fundo de sua mente tinha conscincia que estava procurando uma briga. Gostava de exasperao. Porm, no apreciava o desejo repentino que o invadia.
  um nome bonito.  Marissa colocou um prato diante de Edward. Sorriu, no mordendo a bvia isca dele.  Eu lhe dei esse nome por causa de um grande escritor norte-americano.
O sorriso dela continuou, mas havia um desafio em seus semblante.
 Pelo menos  um pouco mais criativo do que Edward. Que tipo de nome  esse?
Ele achou graa, surpreso com sua prpria verbalizao sonora.
 Agora, pare de ser rabugento e coma antes que esfrie  ela ordenou. Ento, serviu-lhe mais caf e pegou seu filho do cho, sentando-o na cadeira ao lado de Edward.  Espero que no se importe se eu der comida a meu bebe. Nathaniel  uma pessoa socivel. Se algum est comendo, acha que deve comer tambm.
Edward deu de ombros e observou-a pegar uma faixa de uma sacola e amarrar na cadeira, criando um cinto de segurana para o menino. Ento entregou a Nathaniel meia fatia de torrada, encheu sua xcara de leite e juntou-se a eles  mesa.
Edward concentrou-se na comida diante de si, manuseando o garfo, desajeitado, com a mo esquerda. Sempre achara que deveria ser timo ser ambidestro, dessa vez mais que nunca
Relaxou um pouco quando percebeu que Marissa no o fitava, pois dava torradas com manteiga para Nathaniel.
Por alguns minutos, o nico som na cozinha foi o da conversa do menino. Edward estudava atento a criana, mas, a todo momento, seu olhar voltava-se para Marissa.
Seu rosto estava aberto num sorriso maravilhoso, ao alimentar o filho. Edward estava perto dela o bastante para sentir seu aroma, uma leve fragrncia de flores silvestres. Sardas danavam na ponta de seu nariz, dando-lhe uma vivacidade infantil e interessante.
Marissa no era seu tipo, de jeito nenhum. Embora tivesse de admitir que fazia tanto tempo que estivera com uma mulher que nem tinha mais certeza de qual era seu tipo. Ainda assim, intrigava-o que suas grosserias e insolncias no parecessem  irrit-la nem um pouco. Na verdade, Marissa era a nica pessoa, alm de Edmund, que parecia no apenas aceitar suas provocaes como devolv-las na mesma medida.
  Ento, o que voc faz no Kansas?  Edward pensou que o mnimo que podia fazer era oferecer uma pequena conversa em troca da magnfica refeio.
 Quer dizer, alm de cuidar de meu monstrnho?  Os olhos dela reluziam, alegres.  Sou enfermeira. 
Uma enfermeira! Edward meneou a cabea com vigor, lembrando-se de como Marissa se ajoelhara em sua mo, batendo a seguir em suas costelas, enquanto ele permanecia deitado na areia. Teve pena dos pacientes dela.
 Sei o que voc est pensando!  ela exclamou, enrubescendo.  Mas sou muito boa no que fao.
 Uma coisa posso dizer:  uma tima cozinheira.  Empurrou seu prato, com um suspiro de satisfao.
 Obrigada. Gosto de cozinhar. No o fao com muita frequncia, porque  ruim cozinhar s para mim e Nathaniel.
 H quanto tempo est divorciada? Edward a viu limpar a boca do filho.
 No sou divorciada.
 Ah, viva... Sinto muito.
A face dela ficava cada vez mais vermelha.
 Nunca fui casada.
 Eu pensei...  Edward ficou sem graa.
 E uma suposio natural.
Marissa deu-lhe um sorriso ensolarado, e uma onda de calor aqueceu os nervos de Edward.
 No tenho vergonha de no ter me casado. Engravidei, achei que meu namorado ficaria radiante, mas a ideia da paternidade o fez fugir para bem longe.
No havia traos de amargura na entonao dela, mas a ira dominou Edward. No havia nada que odiasse mais do que homens que fugiam de suas responsabilidades paternas. A no ser, claro, quando a mulher os impedia de assumi-las.
Afastou de sua mente a imagem de um garotinho de cabelos escuros e grandes olhos castanhos. Um menino que Edward no via fazia cinco longos anos. No iria se permitir pensar sobre aquilo, pois no podia suportar a dor que tais pensamentos traziam.
Concentrou-se em Marissa de novo. A sorridente Marissa com sardas danantes.
 Devo supor que sua experincia com seu namorado fez voc odiar todos os homens. Em geral  assim, no ?
Ela gargalhou, uma harmonia musical que despertou volpia nele.
  o que dizem. Mas no, eu no passei a odi-los.  Tirou o cinto que prendia Nathaniel, beijou sua testa e o colocou no cho.
Voltou a fitar Edward, seus olhos verdes, exuberantes de primavera, que prometiam veres quentes.
 Sou uma eterna otimista, e acredito no amor verdadeiro, em promessas cumpridas e nos votos de "para todo o sempre". Tudo que estou esperando  encontrar o homem certo.
Edward sorriu, cnico. No acreditava em nada daquilo. No mais.
 E o que far se no encontrar o prncipe encantado? Marissa levantou-se e comeou a tirar os pratos.
 Vou encontr-lo. Ou ele a mim. E saberemos disso no instante em que nossos olhares se cruzarem e nossas mos se tocarem. Estaremos cientes de ter nascido um para o outro.
A cor das ris dela se intensificou e um esgar espirituoso curvou os cantos de sua boca.
Edward bufou com zombaria, desconfortvel com a aparncia ainda mais estonteante dela.
 Voc no cr mesmo nessas bobagens, no ?
  Piamente.  Marissa encarou-o.  E no que Edward Coffey acredita?
 Em nada.  Edward notou o vazio em sua voz e, de repente, sentiu-se extenuado. Afastando a cadeira, pegou as muletas e ergueu-se.  Vou me deitar. Voc e Nate podem ir embora. Obrigado pelo caf.
Edward comeou a andar em direo  sala de estar, mas foi detido por Nathaniel, que lanou-se sobre ele e envolveu seus bracinhos no gesso de sua perna. Marissa estava na pia, de costas para eles.
Edward olhou para a criana, que, por um momento, segurava seu prisioneiro.  Solte, menino.
Nathaniel riu, mostrando seus dentinhos brancos, mas no o largou. Embora no estivesse causando nenhuma dor adicional, Edward teve medo de dar um passo com Nathaniel pendurado nele.
 Solte  repetiu Edward, com um tom zangado. 
Nathaniel riu mais, e juntou suas pequenas sobrancelhas, imitando Edward.
Marissa virou-se da pia e assustou-se.
 Ah, me desculpe!  Correu at eles.  Nathaniel, querido, solte o Sr.Coffey.
 No.  Nathaniel sorriu para sua me e agarrou-se mais forte em Edward.  Papai  disse, acariciando o gesso.
A palavra, pronunciada daquele modo infantil, causou um sofrimento terrvel em Edward. Ele lutou contra a dor, acessando a raiva que sempre usava como escudo.
 Pode tirar essa criana de mim?!
 Estou tentando.  Marissa falou com uma risada encabulada.
Esforava-se por desgrudar os bracinhos de Nathaniel da perna de Edward, mas o menino no cedia. Ele olhou para Edward com um sorriso aberto.
 Talvez se voc tentar levant-lo...  sugeriu Marissa, por fim.
 Levante  exigiu Nathaniel, como se concordasse com a me.
Edward no queria peg-lo. No queria sentir o calor do garoto aninhado em seu peito, e muito menos sentir aquele aroma doce de criana. Mas tambm no poderia passar o resto da vida preso na cozinha pelos braos de um pirralho de dois anos de idade!
Com um profundo suspiro, Edward curvou-se e, atrapalhado com seus dedos quebrados, pegou o menino. Nathaniel foi de boa vontade para o colo dele, enlaando suas mos no pescoo de Edward.
Edward tentou lutar contra a sensao deliciosa de ter um beb no colo. Mas era impossvel no sentir o cheirinho bom que emanava de Nathaniel. Impossvel
no se sentir aquecido por aquele corpinho to perto de seu corao.
 Pegue-o.  Olhou feio para Marissa.  Pegue-o e v embora.
  Mas a loua...  Marissa tentou argumentar, lutando para tirar Nathaniel dele.
Marissa ficou to perto de Edward, que ele notou, mais uma vez, sua fragrncia adocicada. Se quisesse, bastaria inclinar-se um pouco e poderia beijar suas sardas. Bastava querer, para envolver a deliciosa boca de Marissa com a sua. Mas, claro, aquilo era a ltima coisa que ele queria.
 Olhe, voc j fez mais que sua obrigao. Cuidarei da limpeza. Agora, me obedea e v embora.
Queria que ela fosse, e, sobretudo, que a criana sumisse dali. No havia espao na vida de Edward para pessoas com sorrisos meigos e idealismo ilusrio. Alguma coisa em Marissa o fizera refletir sobre beijos profundos e carne fresca. Algo nela e em seu filho o fazia recordar velhas esperanas, sonhos vividos pela metade,
 Voc vai ficar bem?  Marissa teve de falar mais alto, para ser ouvida sob o choro de descontentamento de Nathaniel.
  Sim. Vou dormir bastante e depois ligar para Maria e recontrat-la. Confie em mim. Ficarei bem.
Marissa pegou a bolsa e dirigiu-se  porta da frente. Ento, virou-se para olhar para ele.
 Estou hospedada no Hotel Mason Bridge, Caso precise de alguma coisa, por favor, no hesite em me ligar.
Edward assentiu com um movimento de cabea. A melhor coisa que Marissa poderia fazer por ele era desaparecer de seu caminho.
 Adeus, Marissa. Seja feliz.
No momento em que ela saiu, Edward foi capaz de respirar com mais facilidade.
 Estou livre!  murmurou ele.
Voltou para a cozinha para tomar mais um caf e deparou-se com a sacola de fraldas de Nathaniel. Era de plstico multicolorido e jazia em cima do balco. Um sinal de que Marissa voltaria.
Edward tornou a suspirar. No sabia quando, mas no havia dvidas de que a Srta. Luz do Sol e seu filhinho impossvel voltariam.
Marissa deu falta da sacola de fraldas mais ou menos uma hora depois, j no hotel, quando foi trocar seu filho.
"Droga!", pensou, quando deu-se conta de que a deixara na casa de Edward. Considerou voltar l de imediato, mas, lembrando-se de que ele dissera que pretendia dormir, decidiu esperar at mais tarde. Tirou uma fralda da mala e trocou Nathaniel, que estava choroso desde que tinham sado da residncia de Edward.
A tarde passou muito devagar para ela. No estava acostumada com tanto tempo livre.
 Ento, o que voc quer fazer, querido?  indagou a Nathaniel.
Sem receber uma resposta, Marissa foi at a janela do quarto, enquanto o beb pegava alguns de seus brinquedos.
Eles podiam ir passear na praia, mas o forte calor no era muito convidativo. Talvez dormir um pouco. Nathaniel se mostrava nervoso, e uma soneca, na certa, lhe faria muito bem. Afinal, seu sono no tinha sido muito tranquilo na ltima noite.
Deciso tomada, pegou Nathaniel no colo e ambos, me e filho, deitaram-se na cama. Ela alisou a testa do menino, embalou-o e, dentro de poucos minutos, 
os olhos dele se fecharam, e sua respirao se tornou mais relaxada.
Vendo o nen dormir, Marissa ficou a admir-lo, encantada com suas feies em miniatura. Ele era um Criswell, com sua face redonda e os cabelos lisos. Era como se a natureza soubesse que seu pai o rejeitaria e decidira, desse modo, que Nathaniel no possuiria nenhuma caracterstica fsica de Bill.
Marissa ficou olhando para o cu, seus pensamentos desviando-se para Edward Coffey. Ele, sem dvida, no gostara de Nathaniel. Nunca vira um homem to pouco  vontade perto de uma criana.
Marissa engoliu uma risada quando uma viso desdobrou-se em sua memria: Nathaniel estrangulando Edward com um abrao no pescoo e o pnico resultante que se imps o semblante dele.
Edward a intrigava. Era bravo, impaciente e muito rude, mas por baixo daquela casca grossa ela pressentia vulnerabilidade, uma indisposio para compartilhar qualquer coisa de si prprio por medo de... Medo de qu?
Zombou de si mesma. Estava, com certeza, deixando sua imaginao correr solta. No sabia absolutamente nada sobre Edward Coffey, e no tinha desejo de conhec-lo melhor.
Balanando a cabea, tentou varrer para longe a imagem dele, mas no funcionou. Aqueles olhos azuis, to frios quando irritados, mas to quentes quando divertidos, eram difceis de esquecer. E aquele sorriso... Possua uma ponta de malcia que fazia a temperatura do corpo dela aumentar.
Ainda assim, Edward no era o tipo de homem que idealizava para si mesma como prncipe encantado. Marissa cerrou as plpebras e buscou recordar o
ideal do que fora o companheiro de seus sonhos, desde o dia em que Bill a abandonara.
A aparncia fsica do homem que idealizava no era precisa, mas sabia que teria um sorriso tmido e olhar gentil. Seria um rapaz de fala mansa, que compartilharia dos mesmos gostos que ela. Eles seriam duas metades de um todo, em perfeita sintonia em todos os assuntos.
Aquele com quem Marissa se casaria tambm iria amar Nathaniel. Ele no o chamaria de "a criana" ou "o diabinho da Tasmnia", e sua expresso no irradiaria pnico cada vez que Nathaniel chegasse perto.
Marissa tinha a impresso de que Edward mantinha distncia de tudo e de todos, sem dar chance a ningum de se aproximar. Era bvio que ele nascera para ser solteiro, e ela sentiria pena de qualquer mulher que tentasse mudar a mentalidade dele nesse sentido.
Eram quase trs horas da tarde quando Nathaniel acordou Marissa, tentando desvencilhar-se de seu abrao. Ela o pegou quando ele estava prestes a mergulhar da cama, de cabea.
 Ei, parceiro, aonde voc vai?  Fez ccegas na barriga dele, provocando uma tempestade de risada infantil no ar.  Quer passear?
Marissa o colocou no cho.
 Passear  concordou Nathaniel, indo para a sada do quarto e alcanando a maaneta.
Marissa achou graa.
  Espere um pouco, seu levado. Preciso arrumar aqui um pouco, antes de irmos.
Seu plano era voltar  casa de Edward para pegar a sacola que esquecera. Ento, ela e Nathaniel iriam dar uma volta de carro e procurar um restaurante gostoso para jantar.
Eram quase quatro horas, quando Marissa parou diante da porta de Edward. A cena da praia era idlica. Por um momento, ficou parada, fora do automvel, admirando a beleza pacfica. As ondas se quebravam na areia com estrondos rtmicos, audveis de onde ela estava.
Edward devia ter pago uma fortuna pela casa de vidro naquele local maravilhoso, ela concluiu. O negcio de detetive particular devia ser lucrativo.
Subindo a escada, com Nathaniel nos braos, ia rezando para que Edward tivesse conseguido dormir um pouco. Parecera to cansado durante o caf da manh! E houvera momentos em que sombras escuras roubaram a luz de seus incrveis olhos azuis.
Entrar e sair, disse a si mesma quando bateu na porta. No havia razo para demorar-se. Pegaria a sacola de fraldas e iria embora.
 Entre.  A voz dele soou de algum lugar.
Marissa girou a maaneta e entrou. No mesmo instante avistou-o  mesa do computador, vestindo um short de algodo azul-marinho e uma camiseta cinza. Quando virou-se para olh-la, ela notou que, em algum momento daquela tarde, Edward fizera a barba.
 Sabia que era voc, Marissa.
 Sim, sou eu. - Ela falou de forma vazia, incapaz de tirar os olhos dele.
Sem barba, Edward parecia ainda mais bonito do que pudera imaginar. Os plos faciais tinham escondido suas faces esculpidas e sua boca sensual. E ocultaram, tambm, uma covinha em seu queixo.
 O que voc est olhando?
 Nada... voc...  Marissa corou.  ...tirou a barba. Ele levou a mo ao rosto.
 Sim, e tomei banho tambm. Se  que aquilo pode ser chamado de'banho. Descobri que um gesso representa um grande desafio, sobretudo nesse departamento.
 Voc est muito bonito.
Os olhos dele arregalaram-se de surpresa.
 Obrigado.  Mais uma vez, falou com rispidez, e voltou-lhe as costas para tornar a se ocupar do computador.  Sua sacola est na cozinha.
Nathaniel esperneou no colo da me, querendo ser liberado.
 Cho  demandou o nen,
  No, Nathaniel.  Marissa apertou o menino mais forte.
Foi para a cozinha, apanhou seus pertences e retornou  saa, onde Edward estava digitando no teclado com um nico dedo, da mo esquerda.
 Ligou para Maria para contrat-la de novo, Edward? Mais uma vez, ele virou a cadeira giratria para encar-la.
  Tentei ligar, mas ela no estava em casa. Um jogo de bingo pode evar muitas horas, ento resolvi deixar para amanh.
 Conseguiu dormir?
 Sim, um pouco.
 Nathaniel e eu vamos jantar fora. Gostaria de vir conosco?  O convite escapou da boca de Marissa, antes que ela tomasse conscincia da inteno da oferta.
 No posso.  Suas sobrancelhas juntaram-se no que tinha se tornado uma careta familiar.  Tenho de enviar este relatrio pelo correio amanh de manh, e, no passo que estou indo, passarei a noite toda aqui.
 Eu me ofereci para ajudar, lembra-se? 
 Sim, voc ofereceu, no ?  Edward a analisou por um momento.  A oferta ainda est de p?
Para espanto de Marissa, ele fez a pergunta de uma forma serena, como se tivesse saltado das profundezas de sua teimosia e revelado sua relutncia em admitir que precisava do auxlio dela.
 Claro que est!
"Fim do plano 'passadinha rpida'", ela decidiu.
 Na verdade, tenho vrios relatrios que precisam ser digitados.
 Edward, eu no me importo em fazer isso. Tudo de que precisar, eu farei.
 Posso pedir uma pizza  sugeriu ele.
  Certo.  Marissa sentou Nathaniel no tapete, entregando-lhe alguns brinquedos da sacola de fraldas. Ento, foi at a mesa do computador. - Apenas me mostre o que quer que eu faa.
 Tem um rascunho dos relatrios escritos a mo a.  Edward apontou para uma pilha d papis a seu lado.
Marissa inclinou-se para v-los.
Ela estava perto o bastante para sentir o cheiro dele, o aroma de sabonete de menta misturado com uma agradvel colnia masculina.
Edward clicou o mouse com a mo esquerda.
 E aqui est o formulrio que uso para esses documentos.  bem auto-exphcativo.
Marissa se inclinou mais para visualizar o monitor, e chegou to prxima dele que sentiu a quentura irradiando-se da pele dele.
Marissa tentou concentrar-se nas explicaes do formulrio, mas sua ateno foi capturada pela mo forte dele, por seus braos musculosos, pela salincia de seus bceps e pela largura de seus ombros.
Edward Cofey parecia estar em excelente condio fsica, e Marissa, de repente, lembrou-se de seus quatro quilos extras que carregava desde o nascimento de Nathaniel. Quatro quilos que, definitivamente, se recusavam a ir embora.
Acha que consegue fazer isso?  Edward vrou-se para encar-la.
O rosto dele estava to prximo, sua boca to perto da dela, que o ar ficou preso em seu peito.
As ris dele brilharam, assumindo profundezas que fizeram Marissa estremecer.
 Sim, posso fazer isso.
 Otmo. Tenho mais uma pergunta.
 E o que ?  Marissa sentiu vontade de umedecer os lbios.
 De que tipo de pizza gosta?
Ela endireitou-se, quebrando o encanto no qual cara.
 Pizza? Ah, sim... Tanto faz. Qualquer uma estar bem.
As faces de Marissa ficaram escarlate quando Edward se moveu para se levantar. O que ela pensou, afinal? Que ele fosse lhe perguntar se podia beij-la? E por que iria querer que Edward Coffey a beijasse? Aquele cabea-dura no era nada mais do que uma vtima azarada de um acidente. Nada mais do que um homem desagradvel que o destino, por uma brincadeira de mau gosto, colocara em seu caminho.
 Voc tem de me ajudar a ficar de olho em NathanieJ, Edward. No posso me concentrar em digitar e olh-lo ao mesmo tempo.
No podemos algem-lo?perguntou Edward, seco.
Ele ergueu a mo, antes que ela pudesse responder.
 Tudo bem, posso ver por sua expresso que isso est fora de questo. Ficarei atento, mas se esse garoto se aproximar de mim com alguma coisa que lembre uma arma, gritarei por socorro, combinado?
Marissa riu. Embaixo daquela grosseria, daquele jeito to rude, escondia-se um encantador senso de humor, que ela s podia admirar.
Ento, sentou-se ao computador, pensando que a melhor coisa seria digitar os relatrios bem depressa e manter o mximo de distncia possvel de Edward.
Claro, tinha de admitir que, fisicamente, ele era tentador. Indo um pouco mais fundo em sua honestidade, admitiu que ela, ao que tudo indicava, era vulnervel ao tumulto de tenso sexual que Edward criava, ainda que sem querer.
Mas Edward no era o tipo de companheiro que ela queria para si. Nada a longo prazo.
Se seu relacionamento com Bill fora uma estupidez, cair em algum envolvimento com Edward seria insanidade.
Marissa achou graa de sua concluso, surpresa por um nico momento de contemplao entre eles pudesse ter evocado to sria conjectura.
Digitaria os relatrios, compartilharia uma pizza e sairia dali, retornando a suas frias. Com essa determinao, ps as mos no teclado e comeou sua tarefa.
Edward inclinou-se no sof e esticou as pernas em cima da mesinha de centro, depois de afastar a desordem em seu tampo.
No pretendera pedir a Marissa que ficasse para ajud-lo, mas, aps uma hora de sua luta com o teclado, sentira-se desesperado.
Franziu o cenho quando Nathaniel levantou-se e se aproximou dele, com um caminho de plstico na mozinha gorducha. Se o caminho fosse de metal, ele teria ficado preocupado.
 Camio.  Nathaniel mostrou o brinquedo para Edward.
 Sim  disse Edward, distrado, com o olhar drigindo-se para a mulher ao computador.
Houvera um momento em que estiveram to prximos que ele conseguira imaginar que a estava beijando. Fora um lapso momentneo, e por sorte no seguira seus impulsos.
Ainda assim, o que ser que aquele impulso provocara nele para faz-lo refletir sobre coisas em que no pensava fazia vrios anos?
O que precisava era encontrar uma garota que acreditasse nas mesmas coisas que ele: sem compromisso, sem envolvimento; apenas a boa e velha luxria.
Tinha certeza absoluta de que Marissa Criswell no entendia nada dessas regras. Ela no apenas no aceitaria, como exigiria envolvimento emocional. Alm disso, s estaria l por algumas semanas, ento retornaria a sua vida no Kansas e a suas esperanas de achar seu prncipe encantado.
Se Edward tivesse sorte, poderia ser capaz de manipular a culpa dela no acidente para ter mais algumas refeies caseiras, antes que Marissa deixasse a rea. Pensando em comida, pegou o telefone e ligou para sua pzzaria favorita. Levou apenas um minuto para pedir uma pizza grande. Ao desligar, pulou de susto quando Nathaniel subiu no sof a seu lado.
 Camio  repetiu o menino, entregando o brinquedo para ele.
Seus doces olhos encararam Edward sem piscar, como apenas as crianas pequenas sabem fazer.
Resignado, lutando contra memrias distantes que traziam tanto prazer quanto dor, Edward pegou o caminho.
Nathaniel riu e apontou para sua me.
 Mame.
 Certo. Aquela  sua me.
Fazia cinco anos que Edward estivera prximo de uma criana de idade semelhante a de Nathaniel.
Pelos ltimos cinco anos, Edward decidira manter-se distante dos pequenos. No almoava em restaurantes onde sabia que os encontraria, no ia ao zoolgico nem a parques de diverso. Mas no havia forma de evitar aquele menino, que parecia insistir em fazer uma conexo com ele.
 Luz.  Nathaniel apontou para o lustre acima.
Edward assentiu com um movimento de cabea, imaginando se Nathaniel iria desfiar seu reduzido dicionrio apontando para os objetos correspondentes at
lev-lo  loucura.
Nathaniel ficou em p ao lado de Edward e, inclinando-se sobre a almofada do sof, encostou-se nele.
  Papai  disse o menino. Sem aviso, agarrou a ponta do nariz de Edward. Suas unhas pequeninas pareciam pinas de caranguejo, e Edward gritou em
protesto.
 Solte!
 Papai!  Os dedos de Nathaniel no o soltaram. Marissa virou-se para ver o que estava acontecendo. Pulando, correu at ele.
 Nathaniel, largue!  ordenou. Nathaniel ofereceu  me um sorriso angelical.
 Papai  repetiu.
  No, ele no  seu pai.  Marissa inclinou-se sobre Edward para pegar o punho de seu filho.
Ondas de eletricidade passaram atravs de Edward quando os seios dela roaram de leve seu brao, em um contato muito ntimo. Quase acreditou que ficar sem nariz valia aquele nico momento de deleite.
Rpido, Marieaa conseguiu fazer Nathaniel solt-lo e, com uma expresso severa, sentou o filho no cho. 
 Isso no  bonito, filho!  E virou-se para Edward.  Voc est bem?
Mas uma vez Marssa inclinou-se sobre ele para inspecionar o dano. Estava to perto que Edward podia ver o brilho dourado que acentuava seus profundos olhos verdes. A boca de Marssa, entreaberta, parecia esperar pelo beijo de um amante, e ele podia sentir a respirao quente dela em seu rosto.
Os dedos macios tocaram cada lado do seu nariz e, ento, viram-se atrados demais um pelo outro.
 Estou bem.  Edward empurrou-a irritado. Marissa enrubesceu, afastando-se.
 A menos que voc ache que preciso de um tiro para completar isso,
  No acho que isso ser necessrio  retrucou Marissa, incapaz de esconder a diverso que curvava os cantos de sua boca.
 Vai encontrar seu prncipe encantado logo, logo. O garoto tem uma fixao pela figura do pai.
 Papai.  Nathaniel apontou para Edward.
 Ele deve ter aprendido isso na escolinha.  Uma pequena ruga de preocupao apareceu na testa dela.  Eu nem tinha ideia de que Nathaniel sabia o que "papai" significava.
Antes que Edward pudesse comentar alguma coisa, algum bateu na porta.
 Deve ser a pizza.  Edward pegou sua carteira da mesa do centro e tirou uma nota de vinte dlares.  Voc se importa?  Entregou o dinheiro a ela.
 Claro que no.  Marissa apanhou a nota e foi atender. Retornando com a pizza, parou na frente dele.
 Onde quer comer? Aqui ou na cozinha?
 Por que no comemos no deque?
Edward ainda podia sentir o roar dos seios dela em seu brao e o aroma de sua fragrncia no ar. O interior da residncia, de uma hora para outra, pareceu-lhe muito quente, muito ntimo, muito pequeno. Precisava estar do lado de fora, no ar fresco.
 Deque?  Marissa fitou Nathaniel, preocupada. Voc no quer nos levar para o deque por nenhum motivo em particular, quer?
Ele achou graa.
 Prometo no vou atirar a criana da borda. Alm disso, o deque  todo cercado, ento o menino no poderia cair, nem mesmo por acidente.
 Certo. Boa ideia!
 Por que no leva Nate e depois volta para buscar a pizza?  Edward comeou a seguir o corredor.  Venha, o deque fica fora de um dos quartos.
 Quantos dormitrios tem aqui?  Marissa quis saber, enquanto o seguia com o filho no colo.
 Trs.
Edward passou por uma porta fechada, depois outra, e ento entrou em seu prprio aposento. Era um quarto grande, com portas de vidro que davam para um grande deque com vista para a praia.
Costumava sentar-se l nos fins de tarde, assistindo  escurido roubar o cu azul, e lutando contra seus sonhos aterrorizantes.
Embora sua cama estivesse desarrumada, o ambiente estava relativamente limpo. O sono era, com certeza, a nica atividade que acontecia l dentro.
  Nossa, isto  lindo!  As pupilas de Marissa se iluminaram de prazer quando ela viu o cenrio diante de si.
Edward sentiu um orgulho momentneo,
  Tem uma casa linda, Edward, e esta vista  magnfica!
 Vocs no tm visuais como esse no Kansas, tm? Marissa sorriu e ps Nathaniel no cho.
 E uma pena, mas no. Por que no se acomoda enquanto vou buscar a pizza e alguma coisa para bebermos?
 Cerveja para mm. E se voc no quiser cerveja, deve ter refrigerante na geladeira.
Fora, sem dvida, uma boa ideia ir l fora para comer.
Ali, Edward no poderia sentir o perfume de Marissa.
Nathaniel se levantou e andou em direo a Edward.
 Nariz.  O garoto tocou a ponta de seu prprio narizinho.
 Sim, criana, voc tentou arrancar o meu.
 Orelha.  Nathaniel segurou sua pequena orelha.
 O que est fazendo? Tentando me mostrar como  esperto?
Antes que Edward pudesse bloquear, uma imagem aflorou em sua memria... A viso de um outro menininho, um de cabelos escuros e olhos castanhos. 
Bobby. Seu filho. Bobby gostava de brincar daquilo que Nathaniel estava fazendo. Apontava para suas orelhas, seus olhos, seu nariz, ento para sua barriga... "Baliga!", o beb dizia, levantando a blusa para expor a barriga redonda. Essa era a dica para o pai fazer ccegas nele, e Edward participava at que Bobby gargalhasse de alegria.
Uma imensa emoo cresceu dentro de Edward, apertando sua garganta. Olhou para o oceano, fazendo fora para as lgrimas no o sufocarem.. 
Ficou tenso quando Nathaniel moveu-se para mais perto dele, encostando seu corpinho nas pernas de Edward e alisando o gesso com a mo gorducha.
Edward quase se derreteu. Queria empurrar Nathaniel para longe e fugir das emoes que explodiam dentro de seu peito. Ao mesmo tempo desejava peg-lo e abra-lo, alegrar-se com o aroma doce da infncia que ainda mexia tanto com ele.
Edward colocou uma mo no alto da cabea do beb, sentindo seus cabelos macios. Ento, fechou os olhos, lutando contra a imensa tristeza que o assaltava.
"Bobby, onde voc est?" A pergunta saa do fundo da sua alma.
 Aqui!
A voz de Marissa trouxe Edward de volta  realidade. Suas plpebras se ergueram, e ele afastou a mo de Nathaniel.
 Chegou bem na hora.  Sua voz estava embargada.
Marissa carregava a caixa de pizza, com duas garrafas de cerveja em cima, dois copos e uma xcara de plstico cheia do que parecia ser suco de uva.
 Nathaniel est machucando sua perna?  perguntou ela, ao pr as coisas na mesa.
  Ainda no. Mas no garanto nada, no que se refere a ele.  Edward respirou aliviado quando ela pegou Nathaniel nos braos.
Marissa abriu a caixa de pizza, tirou um pedao e o entregou ao menino, com um guardanapo. Com Nathaniel ocupado e muito alegre, sentou-se  mesa ao lado de Edward e abriu a cerveja para ele.
 Garrafa ou copo? Edward a fitou com frieza.
 Acha mesmo que sou do tipo que bebe em copo? Ela lhe entregou a garrafa.
Nos minutos seguintes, eles no falaram, apenas concentraram-se em comer a pizza. O nico som era o das ondas e algum ocasional canto de pssaros voando pela praia.
Edward sentiu-se relaxando cada vez mais, ganhando distncia do passado emocional no qual, por instantes, cara.
A pizza estava quente, a cerveja gelada, e naquele momento nada doa em seu corpo.
 Faz tempo que mora aqui?  Marissa indagou, quebrando a quietude entre eles.
 Meus pais compraram esta casa quando eu tinha nove anos, e ns passvamos todos os veres aqui. Sempre pareceu ser mais lar do que qualquer outra
em que moramos. Mude-me para c de vez h quase oito anos.
 Voc sempre foi detetive?
  No. Fui policial por cinco anos, e cinco anos atrs abandonei a polcia e pendurei minha placa de detetive.
Ela o olhou com curiosidade.
  O que o fez tomar essa deciso? 
Edward mirou as ondas a distncia.
  Senti vontade, s isso.  O tom foi mais duro do que ele pretendia, porm, no se desculpou.
Havia algumas coisas para Edward que estavam fora de cogitao de serem expostas. E seu passado era uma delas.
 Acho que  melhor voltar aos relatrios.  Marissa ergueu-se.  Peo desculpas por ntrometer-me em sua privacidade.
Edward se aborreceu. As desculpas dela o faziam sentir-se pequeno e dividido.
 No. Eu  que me desculpo.  que no estou acostumado a conversar com uma mulher... Compartilhar as particularidades em geral leva  intimidade. E intimidade costuma conduzir a complicaes que no me interessam.
Marissa o olhou fixo por um longo tempo. Ento, inclinou a cabea para trs e gargalhou.
  No acredito nisso! Est mesmo com medo de que, de alguma maneira, eu me apaixone por voc?  Ela riu ainda mais alto.
  No sei o que  to engraado.  Edward indignou-se.
Marissa parou ao lado dele e colocou uma mo em seu brao.
 Acredite em mim, Edward, no tem com o que se preocupar. No se parece nada com o homem por quem pretendo me apaixonar. Neste momento, j nem tenho mais certeza se gosto muito de voc.  Ainda rindo, pegou Nathaniel no colo e saiu do deque.
Edward a acompanhou com o olhar, pensando, irritado, por que uma garota que conhecera fazia apenas dois dias tinha tanta certeza de que nunca se apaixonaria por ele.
Marissa fez o possvel para se concentrar na digitao dos relatrios, mas seus olhos viviam se desviando da tela do computador para Edward que estava sentado no sof, mirando o espao. A noite cara e quando ela voltara do deque, acendera as luzes da casa, pois j estava bem escuro. Apesar da iluminao, as sombras noturnas pareciam ter assumido residncia nas feies de Edward.
Marissa perguntava-se se ele estaria com dor, e pela milsima vez o remorso a dominou. No podia crer com que rapidez seu filho conseguira fazer aquilo com um homem adulto.
O nene resolvera cooperar, dormindo em um dos sofs da sala de estar. Nathaniel respirava tranquilo, e seu sono era pacfico.
Era difcil para Marissa acreditar quo depressa seu filho se apegara a Edward. Nathaniel no parecia se incomodar nem um pouco com a rispidez dele ou com suas caretas.
Franziu o cenho e voltou a se concentrar no ultimo documento. Leu as anotaes de Edward, e olhou para ele.
 Voc seguiu mesmo essa mulher, Beth Daniels, para todos os lugares, por quatro dias?
Edward a fitou.
  Sem descanso. Fiquei sentado fora do salo de beleza, onde ela arrumava seus cabelos, e a segui at a lavanderia. Eu a vi almoando com sua melhor amiga da faculdade e me acomodei atrs dela no cinema, enquanto Beth comia um saco de pipocas e tomava uma coca-cola tamanho famlia.
- E a moa nunca desconfiou que estava sendo seguida?
Edward sorriu, o gesto fazendo pontos de luz danarem em seus olhos.
 Sou bom no que fao.
 Eu saberia se algum estivesse me seguindo! Edward encarou-a.
 No se fosse eu. J lhe disse que sou bom nisso.  Tornou a recostar-se.  Nesse caso em particular, o marido de Beth Daniels me contratou para descobrir se ela o estava traindo.
Marissa pegou as fotos que acompanhavam o relatrio. Uma mostrava uma loira atraente parada em frente  porta do quarto de um motel. Na outra, a porta ia sendo aberta por um homem alto, de cabelos escuros, e a terceira pegava a mulher entrando no quarto.
  Suponho que ela estava.
 Sim  concordou Edward.  A terceira noite de vigilncia, enquanto o marido dela estava em um jantar de negcios, a Sra. Daniels resolveu aproveitar para ter um encontro ntimo.
Marissa ps as fotografias de lado, aumentando sua expresso interrogativa.
 Por que o sr. Daniels no perguntou para a esposa o que estava acontecendo na vida dela? Seria mais simples.
Edward a fitou, incrdulo.
 Porque as mulheres mentem.
Havia uma tal veemncia na voz dele que surpreendeu Marissa.
 Nem todas, Edward. Isso parece mais...
 ...sujeira.  As sobrancelhas de Edward arquearam-se, e um sorriso cnico curvou seus lbios,  Sou um sujeito sujo que faz um trabalho sujo.
Marissa corou.
  No era isso o que eu ia falar. Ia dizer que  triste ter de envolver uma terceira pessoa para descobrir a verdade entre um casal que deveria se amar.
Edward ficou srio.
 Em minha linha de profisso e em minha vasta experincia, cheguei  concluso de que amor  apenas uma fantasia que as pessoas fingem sentir para preencher necessidades emocionais nada saudveis.
 Com certeza voc no acredita nisso  protestou Marissa.
Havia alguma coisa no fundo daquelas ris azuis que no tinha nada a ver com cinismo, mas com traio e dor.
Edward se desviou dela virando a cabea para o outro lado, como se receasse o que Marissa poderia ler ali.
 Creio nisso, sim  respondeu ele, fitando-a agora com mais suavidade. Porm, a vulnerabilidade que ela pensara ter visto nos olhos dele, desaparecera.  Amor  uma fantasia, um conceito criado por poetas e expandido pela indstria de entretenimento. Os nicos casamentos que duram so aqueles que tm como alicerce mtuos interesses financeiros e objetivos em comum.
Marissa o encarou, incrdula, e suspirou. A desfaatez dele evocava uma tristeza estranha dentro dela. Como seria viver sem a esperana de encontrar o amor
verdadeiro?
 Voc  uma figura mpar! Se eu arriscasse adivinhar, diria que algum o magoou muito, Edward Coffey.
Ele achou graa.
 E se eu pudesse adivinhar, diria que est muito atrasada no quesito "realidade". Voc, mais que ningum, deveria saber que o amor no  real, Marissa. Acreditou no conceito de amar "para sempre", e olhe aonde isso a levou. Agora  me solteira...
  Isso no  verdade! Sou me solteira porque ca no engano de me apaixonar pelo homem errado, no porque acreditava no amor. Mas no cometerei o mesmo erro de novo.
  Est certo.  Ele falava cheio de sarcasmo.  Na prxima vez, reconhecer o prncipe encantado assim que o vir.
 Isso mesmo  concordou, ignorando a ironia dele,  E ns passaremos o resto de nossas vidas muito apaixonados e felizes.
A convico em sua crena era ntida nas palavras dela.
 Voc sempre foi assim, ingnua?
Marissa riu, achando o debate estimulante, de um modo estranho.
 Um de ns  ingnuo, Edward, sem dvida, mas, se eu fosse voc, no concluiria to rpido que esse algum sou eu.
Edward esboou um sorriso genuno, que aprofundou a covinha em seu queixo, causando uma chama de calor que explodiu na boca do estmago dela.
 Ingenuidade no  meu forte, Marissa. Por isso no creio em contos de fadas.
Marissa sorriu tambm.
  Ento, espero que algum dia seja mordido pelo mosquito do amor e mude de ideia.
Mais uma vez, ela pensou ter visto uma vulnervel sombra de tristeza nos olhos de Edward. Mas esteve l apenas por alguns segundos e ento sumiu, tendo em seu lugar o duro brilho da incredulidade.
 No nesta encarnao.  Qualquer coisa a mais que Edward pretendesse falar foi interrompido pelo toque do telefone.
Ele atendeu  ligao, e Marissa concentrou-se mais uma vez no relatrio na tela do computador. 
 O que?
Ela meneou a cabea, desaprovando o jeito de Edward atender quem quer que fosse do outro lado da linha. Edward Coffey era, definitivamente, uma figura mpar.
 Quando?
Marissa sentiu a tenso repentina de Edward, quando ele se sentou ereto contra as almofadas do sof. Ela terminou o ltimo documento, mas hesitou em apertar o boto para imprimir, percebendo que a conversa dele era importante demais para que fizesse barulho.
 Verei o que posso fazer. Obrigado pelo aviso.  Edward bateu o fone no gancho. Ento deu um murro no gesso de sua perna.  Droga!
  O que houve?
 O que houve?!  Edward levantou-se.  O que acontece  que um homem que estou procurando h um ano deve aparecer amanh de manh, e estou com a perna engessada, o que torna impossvel dirigir um carro e conduzir uma vigia policial.
 Posso lev-lo de automvel.
Edward a olhou como se ela tivesse perdido o ltimo pingo de bom senso que lhe restava.
 Voc pode me levar de carro, tudo bem. E sabe como conduzir uma vigilncia?
Marissa deu de ombros.
  S o que vi nos filmes. Compramos um monte de salgadinhos para comer, sentamo-nos no carro em frente ao local e esperamos, observando.
Um sorriso relutante curvou os lbios de Edward.
  E mais ou menos isso.  Num segundo, uma expresso pensativa surgiu no rosto dele.  No tem perigo nenhum  disse mais para si prprio do que para ela.  Mas pode ser um dia estafante.
  Imagine que divertido contar para todo mundo, quando eu voltar, que participei de uma captura em minhas frias!
Marissa no sabia bem por que queria fazer aquilo. Talvez por ainda se sentir responsvel pelas leses de Edward. Ou porque alguma coisa na escurido dos olhos dele a desafiasse a lev-los  luz.
  Certo  Edward concordou.  Se isso no fosse to importante e se no tivesse demorado tanto para achar esse sujeito, nem ao menos sonharia em aceitar sua oferta.
 Mas, j que no tem alternativa, vai aceitar minha ajuda!
Edward fitou Nathaniel.
 Suponho que voc no vai querer deix-lo no quarto do hotel, durante nossa tocaia.
  De jeito nenhum.
Marissa perguntou-se quando tinha parado de se sentir ofendida pelos comentrios dele em relao a seu filho. Na certa fora no momento que chegara ao deque e vira Edward acariciando a cabecinha do menino.
  E a nica condio para eu concordar  levar Nathaniel  acrescentou, antes que Edward sugerisse alguma outra forma de manter seu filho em cativeiro.
  Nate no conseguiria sair da cadeirinha sem ajuda?
Marissa riu.
 No. Prometo, Edward, eu o manterei a salvo de Nathaniel.  Apertou o boto de imprimir no computador e se levantou,  Pronto. Aqui est seu ltimo relatrio.
 Obrigado, Marissa.
 A que horas quer que eu esteja aqui amanh?
 Por volta das seis.
 Meu Deus! Ento  melhor eu voltar logo para o hotel e dormir um pouco.  Parou para pegar a criana dormindo.
Nathaniel se moveu apenas para envolver seus bracinhos no pescoo dela, ento tornou a adormecer.
Edward pegou a sacola de fraldas e a bolsa de Marissa, pendurou-as em sua muleta e a acompanhou at a porta.
 Tem certeza de que pode carregar tudo?
 Absoluta  respondeu ela, sem hesitar.
 Bem, suponho que a verei pela manh.
 Bem cedinho.  E virou-se para partir.
 Marissa?
Ela girou para atend-lo.
 Mais uma vez, obrigado por tudo.  Edward sorriu, e novamente Marissa sentiu uma energia sexual fortssima aflorar.
  No tem por qu.  Ps-se a descer a escada em direo ao automvel.
Seus joelhos estavam fracos. Aquele sorriso dele, vazio de cinismo e pleno de sinceridade, teve o poder de confundir seus sentidos e enviar eletricidade por suas veias.
Marissa prendeu Nathaniel na cadeirinha e se acomodou ao volante. Olhando para a casa, pde ver Edward parado  soleira, e a sensao de calor intensificou-se.
Mesmo com as muletas e a perna engessada, ele parecia forte e sexy. A lembrana do aroma dele, uma fragrncia leve e selvagem ao mesmo tempo, retornou a ela no momento em que imaginou como seria ser envolvida nos braos dele, apertada por suas mos, beijada por seus lbios.
 O que est acontecendo comigo?!  murmurou, ligando o motor.
Quando Edward sorrira de maneira to genuna, fazendo seus olhos azuis clarearem e a covinha no queixo se aprofundar, provocante, despertara alguma
coisa dentro dela.
Pensou em como Edward seria com um sorriso constante no rosto. Como haveria de ser com uma esperana no corao? A possibilidade tirou-lhe o flego.
Ao dirigir para o hotel, imaginou como seria a manh seguinte. S Deus sabia como Marissa se comportaria com Edward a seu lado durante horas.
Prometera que o manteria a salvo de Nathaniel. Mas quem a manteria a salvo de Edward Coffey?
Edward estava sentado no deque, assistindo ao nascer do sol no horizonte, enviando reflexos vermelhos e dourados vibrantes no cu noturno, as cores refle-tindo na superfcie da gua.
Marissa deveria estar chegando a qualquer momento, e ele passara a noite arrependendo-se de ter aceitado a oferta de Marissa para lev-lo e ficar com ele durante o tempo que levasse a vigia.
Se no fosse pelo fato de Edward estar atrs de Samuel Jacobson havia um ano, e agora estar perto da possibilidade de agarr-lo e prend-lo, jamais .teria considerado o favor de Marissa.
Suspirou e passou os dedos por entre os cabelos. Dormira mais ou menos bem, mas fora visitado por sonhos perturbadores com Marissa.
Neles, Edward beijava os doces lbios dela e corria as mos pela aurola dourada de cachos sedosos. Os olhos de Marissa eram de um profundo verde convidativo de vero, prometendo um calor imenso e um prazer extraordinrio.
E em sua fantasia, Edward absorvera a quentura de Marissa, cara na delcia de seus beijos e de suas carcias. Acordou apavorado, no pelo sonho em si, mas pela imensa felicidade que o acompanhava. Uma alegria que no experimentava fazia anos, e que nunca mais tornaria a sentir.
Quando a ltima das imagens noturnas deixara sua mente, Edward brigou com suas emoes. Marissa, com toda aquela conversa de prncipe encantado e amor eterno, pelo visto, invadira seu subconsciente. Mas em seu consciente ele sabia que aquilo tudo era pura iluso.
 A est voc!  murmurou Edward para a nova manh.
Nunca seria tolo o bastante para entregar-se de novo  iluso.
Levado cinco anos para se recuperar, depois que sua vida se partira ao meio. No permitiria que uma loira sexy de olhos verdes e ideias malucas destrusse a paz que, enfim, conseguira encontrar.
O que no podia entender era como uma garota que conhecia fazia menos de trs dias fora capaz de invadir seus devaneios. Aquilo era ridculo.
Edward consultou o relgio e levantou-se. Eram seis horas em ponto. Saiu do deque e andou at a porta da frente. No exato momento em que a abriu, Marissa
estacionou seu carro alugado.
Edward no arriscara descer a escada desde o dia em que Marissa o trouxera do hospital. Subir, de algum modo, parecia mais fcil que descer. Cair subindo tinha menos risco de acidentes do que cair descendo.
Ele deixara uma das muletas no quarto, imaginando que no precisaria das duas. Ento, segurou firme na muleta e comeou a descer.
Quando alcanou o terceiro degrau, Marissa, como num passe de mgica, apareceu a sua frente.
 Deixe-me ajud-lo  disse ela.
Antes que Edward pudesse protestar, Marissa tirou sua muleta e colocou-se embaixo de seu brao forte.
 Agora, apie-se em mim.
Ela se encaixava com perfeio embaixo de seu ombro. Seus cachoa loiros roavam o pescoo dele. O aroma limpo, fresco e com um leve toque de flores o envolveu, e o calor do corpo dela fez seu sangue ferver.
  Voc est bem?  perguntou Marissa, quando estavam na metade da escada.
  Tanto quanto se pode esperar, considerando a situao em que voc e seu filho me puseram.  O tom dele era mais agudo do que pretendera.
Edward viu um relmpago de fogo nas pupilas dela, porm, Marissa no falou nada. Ele quase desejava que ela ficasse brava, que gritasse com dio. Assim poderia livrar-se de um pouco da energia que o assolava naquele momento.
Quando sentou-se no banco do passageiro, enquanto Marissa guardava a muleta no porta-malas, Edward se sentiu pequeno e malvado. Nathaniel o cumprimentou de seu assento de trs.
 Papai!  O pequeno riu.
 Errado, garoto. Estou mais para "imbecil"  sussurrou Edward.
Marissa sentou-se atrs da direo, recusando-se a olhar para ele. Ento, ligou o motor.
 Vamos, fale.
Marissa virou-se e encarou Edward com curiosidade.
 Falar o qu?
 Diga que sou um imbecil,
 Certo, Edward. Voc  um imbecil.  Os olhos dela brilharam com um toque de bom humor.  Est se sentindo melhor agora?
 Sim, estou. Diga-me, voc nunca fica irritada?
 Na verdade, no. Tento no gastar energia com emoes negativas.  Engatou a primeira marcha e seguiu em frente.  Alm disso, se eu ficasse irritada com voc cada vez que estivesse carrancudo ou que dissesse alguma grosseria, ficaria exausta.
 Ainda assim, me descontrolei, e peo desculpas.  Edward passou a mo na testa.  E que odeio me sentir to... to...
 ...intil?
 Sim.
Fora justo o sentimento de inutilidade que o dominara na escada. No tinha nada a ver com o desejo que pudesse estar sentindo pela linda mulher sentada a seu lado.
 No prximo cruzamento, vire  esquerda  disse ele.
Enquanto Marissa se concentrava em dirigir, Edward focalizou-se nela. A luz fraca da manh realava o dourado de seus cabelos e dava um brilho saudvel
a sua pele. Percebeu que ela quase no usava maquiagem, s um leve escurecimento de seus longos clios e um batom clarinho nos lbios.
Ela usava uma cala jeans surrada e uma camiseta verde que parecia ter sido lavada muitas vezes.
 Quanto tempo voc disse que vai ficar aqui de frias?
 Trs gloriosas semanas.  Marissa lhe endereou um sorriso.  Minha av me deu esse descanso de presente. Caso contrrio, nunca teria condies financeiras para vir por mim mesma.
Tudo comeou a fazer mais sentido. Edward no a via como uma turista rica. Recebera um presente que, decerto, eram umas frias muito necessrias, e ele estava roubando o tempo dela e fazendo-a sentir-se culpada pelo acidente, que, na verdade, no fora culpa de ningum.
 Eu lhe prometo que, depois de hoje, no vou tirar mais nenhum minuto de suas frias, Marissa.
Ela lhe deu um sorriso luminoso.
 No me importo. Tenho impresso de que enjoaria de ficar s na praia, e com Nathaniel as opes de divertimento so limitadas.
 Vire aqui.  Edward indicou uma rotatria. Ele a fitou mais uma vez, achando delicioso olhar para Marissa.
 Aposto que voc  uma boa enfermeira.
 Por que est dizendo isso?
 No sei.  fcil imagin-la indo de um paciente a outro, distribuindo animao e otimismo junto com comprimidos e injees.
Marissa achou graa.
- Gosto de pensar que sou boa no que fao, e parte de meu trabalho  suprir as necessidades emocionais de meus pacientes, assim como as clnicas.
Edward tinha algumas necessidades que no se importaria que ela cuidasse... Apontou para que Marissa virasse a prxima rua  direita, recusando-se a aceitar o fato de que ela era a mulher mais atraente que conhecera nos ltimos cinco anos.
 Ento, quem vamos vigiar?
Edward mudou de posio, procurando por conforto.
 O nome dele  Samuel Jacobson, e estamos indo para uma casa que ele possui. Mas no tem aparecido l nos ltimos seis meses. O telefonema de ontem foi de um informante que afirmou que Samuel estar na casa, em algum momento do dia de hoje. Tudo o que tenho a fazer  ver quando ele entrar. Ento, chamarei um amigo meu da polcia, e ele vir efetuar a priso.
 Puxou um telefone celular do bolso e mostrou a ela,
 Uma priso? Ento esse homem  um criminoso? Marissa lhe dirigiu um olhar preocupado.
 Samuel comete apenas crimes do colarinho branco- Eu lhe falei ontem que essa no  uma misso perigosa.  Sorriu.  Posso ser um imbecil, mas no sou totalmente sem conscincia. Jamais teria concordado ter voc e Nate comigo, se achasse que teria o mnimo de risco.
Marissa esboou um sorriso amplo para ele, e Edward indagou-se se ela teria o gosto to doce quanto sua expresso. Os lbios de Marissa seriam quentes e macios? Abrir-se-iam famintos para os dele? Ela envolveria os braos em seu pescoo? Pressionaria seu corpo contra o dele?
Edward decidiu esquecer essas questes sensuais. Marissa estava l de frias e, em menos de trs semanas, voltaria a seu cotidiano no Kansas. Na certa se casaria com um mdico e viveria feliz para sempre. Alm disso, tudo o que Edward queria dela era uma noite. Uma nica noite de prazer fsico, sem envolvimento emocional.
Nathaniel soltou um grito l de trs, como se lesse os pensamentos de Edward e vociferasse em protesto.
  Ele deve estar com fome.  Marissa mostrou com um gesto um saco de supermercado entre ela e Edward. - Tem algumas bananas a. Voc se importa em descascar uma e dar a Nathaniel?
 Nana!  falou o menino.
Edward remexeu no saco, encontrando no s as bananas, mas doces, um pacote de salgadinhos, balas de hortel, iogurte e copos de gua.
 Comprou tudo isso antes de chegar a minha casa?  Ps-se a descascar uma fruta.
Marissa assentiu com um movimento de cabea.
 Uma emboscada no  uma emboscada sem um monte de bobagem para se comer.
Edward virou-se e entregou a banana para o menino.
 Papai!  Nathaniel riu para ele, pegando a fruta.
 No nesta encarnao, criana.  Edward virou-se para a frente.  Certo, v mais devagar. Estamos chegando.
Nos ltimos seis meses, Edward estivera naquele bairro calmo e de classe mdia milhes de vezes, sempre esperando algum sinal de vida na propriedade de Jacobson. Sabia muito bem o melhor ngulo para esper-lo.
 Voc pode ir em frente e estacionar ali, Marissa. Ela atendeu o pedido. Em seguida, ps seu assento para trs, esticando as pernas.
"Possui lindas pernas, moa... Longas, com pele bronzeada que parece macia como seda." Os dedos dele formigaram ao se imaginar tocando-as.
A irritao tomou conta de Edward. Que droga estava acontecendo? Por que aquela mulher em particular estava tomando conta de cada pensamento seu sem que pudesse fazer nada a respeito?
Marissa j lhe dissera que ele no era seu tipo e que no tinha nada a ver com o prncipe dela. E Edward,  lgico, no acreditava que fosse achar uma princesa para si mesmo.
Ento por que desejava convenc-la de que podia, pelo menos por uma noite, ser seu prncipe encantado?



CAPTULO V

Marissa no havia se dado conta do quo perto eles ficariam no carro, mas, conforme as horas se passavam, mais consciente se tornava da presena de Edward.
O aroma dele preenchia o ambiente, uma fragrncia muito masculina, que era prazerosa. Como de costume, os cabelos dele estavam charmosamente despenteados, conferindo-lhe um visual viril e atraente.
Edward usava uma bermuda de moletom e uma camiseta cinza que expunha os msculos bronzeados de seus braos. O gesso que cobria a perna dele no disfarava em nada a fora e a masculinidade que exalava.
Uma energia inquieta irradiava-se de Edward, fazendo com que Marissa se sentisse ansiosa e tensa.
Ela se perguntava se Nathaniel tambm estaria sentindo a energia, pois se mostrava mais agitado do que de costume. O beb esfregou os olhos, jogou a banana no cho e emitiu sons de uma criana que precisa de um cochilo imediato.
 O que h com Nate?  Edward indagou, quando Marissa virou-se no banco pela terceira vez para tentar acalmar o garoto irrequieto. Olhou no relgio,
  Este  o horrio da manh em que Nathaniel costuma dormir um pouco. Por alguma razo, est lutando contra o sono.
Marissa deu ao filho um de seus brinquedos favoritos, mas ele o jogou longe e continuou a choramingar.
 Talvez se eu o segurasse um pouco...  Ela no queria que Nathaniel chorasse e irritasse Edward.
Assim, com um enorme esforo, de onde estava conseguiu abrir o cinto da cadeirinha e o puxou para seu colo, na frente.
Marissa encostou a cabea do filho contra seu peito e acariciou suas costas, esperando que dormisse. Mas o beb no se conformou, e se ps a lutar contra todas as tentativas que a me fazia para acalm-lo.
 D-me o garoto. Marissa encarou Edward.
 No pretende jog-lo pela janela, no ?  perguntou, indecisa.
Edward esboou aquele sorriso sexy que, por alguma razo, aumentava ainda mais a temperatura interna dela.
  Prometo que se o mpeto de fazer isso me acometer, eu a avisarei antes de agir. Apenas d-me Nate por alguns minutos.
Nathaniel foi de boa vontade para o colo de Edward.
 Muito bem, Nate. O que est acontecendo? Nathaniel parou de choramingar e encarou Edward. Seus olhos azuis to redondos pareciam duas bolinhas de gude.
 No sabe que um homem de verdade no chora?
 No acredito nisso  declarou Marissa.  Homens de verdade expressam suas emoes, mesmo que elas os faam chorar, e  isso que ensino a meu filho.
 Ah...  Edward falava para Nathaniel.  Agora entendo por que est to aborrecido. Sua me quer transform-lo em um mariquinhas.
Marissa achou graa, e Nathaniel sorriu, como se estivesse achando a conversa divertida.
 Voc  uma pea rara, Edward Coffey!
 Ouviu isso, Nate? Sua me est falando mal de mim. O que voc vai fazer a respeito?
Nathaniel encarou Edward por mais um longo tempo, ento encostou a cabecinha no peito dele e fechou os olhos. Ern poucos minutos, dormia como um anjo.
 Tpico machista!  exclamou Marissa.  Quando a conversa fica difcil, ele adormece.
Edward no disse nada, mas alisou as costas de Nathaniel, de leve. O pequeno se aconchegou mais ainda.
Marissa franziu o cenho e olhou pela janela para casa que eles estavam vigiando. Edward Coffey a confundia. Confessava detestar crianas, e ainda assim parecia ter um jeito natural com Nathaniel.
Ver seu beb aninhado no trax largo de Edward a emocionou, fazendo uma estranha nostalgia brotar em seu ntimo. O prncipe de seus sonhos seria bom para Nathaniel. Amaria seu filho tanto quanto a amaria. Mas  claro que o prncipe encantado no tinha nada a ver com Edward.
 Ento, o que Samuel Jacobson fez? Corrupo?  perguntou, tentando se concentrar em outra coisa, alm de seu filho nos braos fortes de Edward.
 Samuel  um pai caloteiro. Marissa o olhou, surpresa.
 Como assim?
  Ele possui uma manso na Flrida, nas ilhas Cayman, um Mercedes e um barco grande o bastante para abrigar uma famlia de quatro pessoas. E tem uma ex-esposa que mora com dois filhos em um apartamento minsculo. Ela est com dificuldades financeiras, e o miservel se recusa a pagar a penso das crianas. Est com vrios julgamentos adiados e mandados de priso do tribunal.
 Ento a ex-mulher dele o contratou para ach-lo? 
Edward hesitou, antes de responder:
  No, ela no tem dinheiro para perseguir um ex-marido errante. Fao algum trabalho voluntrio para uma organizao que ajuda mes a obter a penso de seus filhos.
Marissa o estudou pensativa. Edward era um poo de contradies. Dizia no gostar de crianas, e ainda assim voluntariava seu tempo disponvel em favor delas.
Que outras surpresas ele podia oferecer? Uma coisa era certa: havia mais em Edward Coffey do que ele deixava transparecer.
  Como voc soube que ele estaria aqui hoje?
 Nos ltimos meses, fiz amigos na vizinhana.  Edward apontou para a residncia ao lado da de Samuel Jacobson.  Samuel sempre liga para eles para avis-los que estar na cidade. Gosta da casa arejada e pede aos vizinhos que abram algumas janelas. Foi deles o telefonema que recebi ontem  noite, contando-me que haviam falado com Samuel.
Marissa assentiu com um breve movimento de cabea.
 Quer que eu coloque Nathaniel no banco de trs?
 No, ele est bem. Contanto que no me d uma cotovelada e me quebre uma costela.
 Acho que voc est seguro.  Marissa alcanou a sacola do mercado, pegou um iogurte e ofereceu para ele, mas Edward recusou com um gesto de cabea. 
 Ento, o que o fez ser voluntrio dessa organizao em particular?  Tomou um gole na bebida.
 No sei. Pareceu-me uma causa que valia a pena. Ela sorriu, provocante.
 Tenho de admitir que me surpreendi. Voc parece combinar mais com um grupo como "Os malvados tambm tm direitos". Edward se divertiu.
 Eu mereo isso. No comecei com meu p direito com voc, no ?
   difcil comear com o p direito quando ele est quebrado.
Edward gargalhou, e ia falar algo, mas parou quando um veculo estacionou diante da casa que eles observavam.
Um homem obeso saiu dele, destrancou o porto, entrou com o carro e desapareceu l para dentro.
 E ele?  perguntou Marissa, ansiosa.
 O prprio.  Edward tirou o celular do bolso e discou um nmero. 
 Venha e pegue-o  ordenou a quem quer que tivesse atendido sua ligao.
Ao desligar, sorriu para Marissa.
  Agora s vamos esperar e torcer para que meu amigo chegue aqui antes do velho Samuel decidir sair outra vez.
Em poucos minutos, uma viatura policial chegou, e dois homens fortes saram da radiopatrulha, entrando na casa. Marissa pegou-se prendendo a respirao. 
 Sim!  Edward exclamou, contente quando os policiais saram, com Samuel Jacobson algemado. Bateu em seu joelho e encarou Marissa com um sorriso de puro triunfo.  Finalmente o pegamos!
 Excelente! O que acontece agora?
 Samuel Jacobson enfrentar um jri irado, e ns iremos para casa. Vou preparar para voc um almoo para comemorarmos.
 Para mim, est timo. Deixe-me apenas colocar meu beb de volta na cadeirinha.  Marissa inclinou-se, pegou Nathaniel, que ainda dormia, e acomodou-o em seu assento.
 O que tem para o almoo?  Ela deu a partida no motor.
 Gosta de comida chinesa?
 Adoro!
  Que bom... Vou pedir ao meu restaurante favorito.
Marissa sentiu o olhar dele demorando-se nela.
  Olhe, obrigado por tudo que voc fez para me ajudar.
 Por nada  respondeu ela, tentando ignorar a emoo que aquecia seu peito.
Edward Coffey zangado era uma coisa. Edward Coffey generoso era algo de extrema periculosidade.
Quando chegaram  residncia de Edward, Nathaniel ainda estava adormecido. Marissa o carregou para sala e o colocou no sof.
 O que quer que eu pea para voc?  Edward indagou da cozinha.
 Qualquer coisa. Surpreenda-me  disse ela, cobrindo Nathaniel com uma colcha leve.
 Se quiser ir ao toalete, fique  vontade, Marissa. Vou ligar para pedir nossa refeio.
Marissa comeou a andar pelo corredor  procura do banheiro. Sabia que o ltimo quarto do corredor era o de Edward, mas no tinha certeza de qual das outras trs portas fechadas era o toalete.
Abriu a primeira porta a sua direita e congelou ali, chocada. No era o banheiro, e sim um quarto de criana. Um papel de parede com motivos infantis alinhavam-se no teto, e um bero de madeira com um acolchoado de ursinhos estava a um canto. Uma cama infantil fora colocada na outra extremidade, com uma colcha toda colorida.
Marissa sabia que devia fechar a porta e sair dali, mas a enorme curiosidade arrastou-a para dentro do aposento.
Ursos de pelcia, um caminho de brinquedo, um carro de bombeiro em miniatura, uma luva de beisebol, roupas de vrios tamanhos, tudo ainda em sua embalagem original. Por que aquilo estaria ali? De quem era?
Por que Edward, um homem que nunca fora casado, que alardeava no gostar de crianas, tinha todas aquelas coisas? Inmeras questes se embaralhavam em sua cabea, quando aproximou-se do bero, atordoada.
  O que voc est fazendo aqui?
Marissa pulou de susto e virou-se para ver Edward parado  soleira, com o rosto cheio de dio.
Ele sabia que sua raiva estava fora de proporo, mas aquele quarto continha todas as suas esperanas frustradas, todos os seus sonhos destrudos e toda dor que o atormentava.
No entrava l fazia meses e, decerto, no queria compartilhar aquilo com mais ningum.
 Eu... pensei que esse fosse o banheiro. Desculpe-me. 
O dio inicial se foi, e Edward falou, seco:
  Fica atrs daquela porta.
Marissa passou rpido por ele e desapareceu.
Entrar naquele quarto era como voltar ao passado. Uma poca onde uma criana de cabelos escuros rira no bero, um garotinho que o chamara de papai, que lhe dera beijos estalados e cativara seu corao.
Edward andou at a cama, que fora comprada para seu terceiro aniversrio, mas que ele nunca chegara a ver. O caminho de bombeiro era para o quarto aniversrio, a luva de beisebol, para o quinto. Animais de pelcia, roupas progredindo de tamanho... Presentes de Natal nunca abertos, um futuro nunca realizado...
Edward no saberia dizer quanto tempo se passara enquanto estivera parado ali, olhando os objetos com que nunca ningum brincaria, que jamais seriam usados.
No sabia bem por que continuava comprando presentes para uma criana que perdera.
Uma pilha de livrinhos infantis descansava em cima da cmoda. Edward os lera para um menino risonho de dois anos. Foram os ltimos presentes que Bobby usara.
O toque da campainha ecoou pela casa, tirando Edward da inrcia na qual mergulhara. Deixou o aposento e bateu a porta, fechando ali seu passado... e se Deus quisesse, sua dor.
Foi atender o entregador de comida chinesa e percebeu que devia ter ficado no quarto por um bom tempo. Pagou ao homem e levou o pacote para a cozinha.
Marissa tinha arrumado a mesa, e estava em p  janela, de costas para ele.
  Espero que esteja com fome.  Edward forou uma animao que no sentia.
Marissa virou-se para encar-lo.
 Pedi comida suficiente para dez pessoas.  Ele abriu o pacote e comeou a colocar as caixinhas no tampo, ciente do olhar intenso dela. Ento, afundou-se numa cadeira e gesticulou para que se sentasse na frente dele. Suspirou.  No se preocupe, no sou um pervertido ou qualquer coisa assim.
 Isso nunca passou pela minha cabea. - Os olhos dela, to verdes e claros, mostravam confuso, mas ele achou que se no explicasse nada sobre o quarto que vira, Marissa respeitaria sua privacidade e no tocaria no assunto tambm.
 O nome dele era Bobby.  As palavras saram espontneas, e s de pronunciar o doce nome de seu filho, as lembranas se transformaram em tormento.  Tinha quase trs anos na ltima vez em que o vi.
 Era seu filho?
Edward fez que sim, embora classificar Bobby como seu filho era simples demais para o que o menino significara para ele. Bobby preenchera seu mundo, fora o elemento cataltico para esperana e sonhos.
 O que aconteceu? Ele... faleceu?
 No. Pelo menos, no que eu saiba.  Recostou-se no espaldar.  Embora s vezes eu chegue a pensar que teria sido mais fcil se Bobby tivesse morrido. Assim pelo menos haveria algum fechamento nessa histria.
Marissa franziu as sobrancelhas.
 No entendo. O que houve?
Edward fez uma pausa. Passara o ltimo ano tentando, com desespero, no pensar sobre Sherry, sobre Bobby, empurrando a dor para longe, engolindo o
sofrimento.
 Conheci Sherry, a me de Bobby, quando eu era policial. Assaltaram o apartamento dela e fui eu quem recebeu a chamada. Sherry era linda e cheia de vida, e houve uma atrao instantnea entre ns. Quase no mesmo instante, comeamos um relacionamento e, dentro de dois meses, ela estava grvida.  Empurrou uma das embalagens para Marissa.
 No, obrigada. Vou comer mais tarde. 
Ele tambm j estava sem fome.
  Implorei a Sherry que se casasse comigo, mas ela no queria saber de casamento. Disse que as coisas estavam acontecendo muito rpido, que precisvamos dar um tempo. Mesmo assim, mudou-se para c comigo, quando estava com cinco meses de gravidez, e em cinco de abril, Bobby nasceu.
Por um momento, doces memrias passaram por Ed-ward, quando pensou no instante em que seu filho viera ao mundo, berrando com vigor e abanando suas mozinhas como um lutador.
 Bobby pesava quase quatro quilos e era cabeludo. Eu achava que ele era o bebe mais lindo do mundo. Todos os dias eu pedia a Sherry que se casasse comigo, mas ela continuou se recusando. Eu achava que era importante nos casarmos, mas Sherry no pensava dessa maneira.
Edward levantou-se e foi at a janela.
 Ela odiava meu trabalho. Ento, larguei a polcia e me tornei detetive. Acreditei que se eu pudesse ficar mais em casa as coisas poderiam mudariam. Mas ela estava irrequieta, saa na maioria das noites, enquanto eu cuidava de Bobby. Tinha conscincia de que as coisas iriam ruir entre ns, mas estava determinado a, independente do que acontecesse comigo e com Sherry, ser sempre uma grande parte da vida de meu filho. Uma manh, beijei Bobby e Sherry para me despedir, e quando cheguei em casa do trabalho, naquela noite, eles tinham partido.
 Meu Deus, Edward!
Ele virou-se da janela e encarou Marissa. A cumplicidade escurecia os olhos dela e suavizava suas feies.
 Sherry me deixou um bilhete, explicando apenas que era hora dela mudar-se, que a rotina a estava deprimindo. Ordenou que eu no tentasse encontr-los.
 E voc tentou?
 Se tentei?  Uma risada amarga escapou de sua garganta.  No fiz outra coisa. Gastei cada momento, usei cada recurso em que pude pensar, mas era como se o ar os tivesse engolido.
 E quanto tempo faz isso?
 Cinco anos. Trs anos atrs, descobri que Sherry tinha morrido num acidente de carro em Miami, e Bobby foi engolido pelo sistema.
 Como assim?  Levantou-se, aproximando-se dele.
 O Estado pegou Bobby e colocou-o em algum orfanato. Contatei uma assistente social em Miami, mas no adiantou nada. O relatrio oficial mostrava que Bobby fora listado como filho de pai desconhecido. Foi quando descobri que Sherry nem ao menos me listara como pai nos registros de nascimento dele. Perante a lei, no tenho nenhum direito sobre meu menino.
 O que aconteceu depois?
 Voltei para c e esperei a assistente social me contatar. Eu a procurei, mas ela continuou fugindo. Ento passei o ano seguinte bbado, e h mais ou menos seis meses, cansei de beber.  Deu de ombros.  E esse  o fim de minha histria triste.
Edward se sentiu exausto, como se falar de seu passado o tivesse esgotado, tanto fsica como emocionalmente. Sua perna e sua mo doam mais do que doeram nos dois ltimos dias.
  E as coisas do quarto?
  Comprei para Bobby. Todo dia 5 de abril, todo Natal, eu compro um presente para ele. No sei por que fao isso. E um tipo de compulso perversa.
Marissa aproximou-se mais e colocou as palmas no rosto de Edward.
As mos dela estavam quentes, e o olhar fixo. Marissa estava to perto que ele podia sentir o roar de seus seios o aquecendo.
 Sinto muito, Edward. No posso imaginar a dor de perder um filho.
A respirao dela era quente nas faces dele, seus lbios to prximos que se Edward inclinasse um pouco a cabea poderia toc-los com os seus.
 Espero que voc nunca passe por essa experincia, Marissa.
Edward sabia que ela estava tentando confort-lo, e ele queria desfrutar daquele conforto, permitir que seu desejo por Marissa varresse sua ltima dor. Sem hesitao, inclinou-se e aproximou seus lbios dos dela.


CAPITULO VI

Marissa tinha desejado confort-lo, mas quando a boca de Edward tocou a dela, aquela necessidade desapareceu, sendo substituda por uma emoo ainda rnais forte.
Ele no lhe deu oportunidade nem de raciocinar, quando envolveu seus lbios num beijo quente e faminto. Abraou-a, puxando-a mais para perto de si.
Marissa ps as mos no peito dele, pensando que pudesse empurr-lo para protestar. Mas, quando se deu conta, estava enlaando o pescoo dele. Incapaz de reagir, entregou-se ao assalto sensual.
Em algum lugar no fundo de seu ser, Marissa percebeu que queria que Edward a beijasse. Sabia que ele a beijaria com paixo e profundidade. E no se
enganara.
Edward aprofundou a carcia, sua lngua invadindo a boca de Marissa e misturando-se com a lngua dela. Ao mesmo tempo, sua mo boa deslizava embaixo da camiseta que ela usava, acariciando a pele nua de suas
costas.
O toque quente e delicado dele uniu-se ao fogo daquele beijo ardoroso, atiando uma quentura doce de volpia por todas as clulas de Marissa. A mente dela estava atordoada com o cheiro masculino do corpo dele.
Edward Coffey poderia no ser o prncipe encantado, mas, sem sombra de dvida, sabia como beijar.
Os lbios dele por fm desprenderam-se dos dela e deslizaram pela lateral de seu pescoo. Marissa sabia que a coisa mais inteligente a fazer seria se afastar daqueles toques, da mgica dos beijos dele.
Porm, no queria ser inteligente e no desejava distanciar-se. Nem mesmo tinha certeza de que seria capaz de dar um passo para trs, com suas pernas fracas e seus msculos tremendo de paixo.
Inclinou a cabea para trs, permitindo que Edward lhe beijasse o lbulo da orelha. Ento, passou as mos nos cabelos dele, descobrindo quo macios eram.
 Marissa...  sussurrou, ao ouvido dela.  Eu quero voc.
E Edward investiu, mais uma vez, num longo e estonteante beijo.
As palavras cheias de volpia enviaram uma violenta excitao atravs da espinha de Marissa. Mas, junto com aquela sensao, surgiu o primeiro laivo de bom senso e racionalidade.
Poderia permitir-se cair por completo no encanto das delcias que Edward lhe provocava e deixar que ele fizesse amor com ela. Mas o que resultaria disso? Na melhor das hipteses, teria uma boa lembrana de suas frias para levar consigo para casa. Um souvenir indesejvel de paixo passada com o homem errado. Edward no era seu prncipe, e ela no queria incidir no mesmo erro que cometera com Bill.
Alm disso, as emoes deles estavam em alta, um pouco antes do beijo. Marissa no confiava no que Edward sentia por ela, e nem que o que estava sentindo por ele no momento fosse verdade.
Conheciam-se fazia apenas poucos dias. Tudo aquilo era loucura... pura loucura.
 Edward...  Marissa empurrou o trax dele, com gentileza.
Edward a soltou de imediato e distanciou-se.
 Desculpe-me.  Seus olhos brilhavam de desejo.  Faz muito tempo que no seguro uma mulher nos braos. Perdi o controle. No acontecer de novo.
Ele sentou-se  mesa e comeou a se servir. Marissa tambm se sentou, seu corpo ainda tremendo das sensaes inegveis.
  Faz tempo que no me vejo nos braos de um homem, Edward. Tambm me descontrolei.
Ele entregou-lhe uma embalagem de frango xadrez.
 No esteve com mais ningum depois do pai de Nathaniel?
Marissa corou.
 No.  No podia evitar, tinha de perguntar:  E voc?
  Houve algumas namoradas passageiras em minhas noites, mas no muitas, nem por muito tempo. Encontrar mulheres que entendam o jogo  difcil.
 O jogo? 0 que quer dizer?
Edward pegou um pedao de frango com os rashis e mastigou, pensativo, antes de responder. O brilho de suas pupilas tinha sumido, voltando ao familiar azul frio e cnico.
 A maioria das garotas quer a rotina completa. Jantar  luz de velas, olhares profundos e cheios de significados, doces palavras vazias, e o pior de tudo: compromisso. S o que me interessa  uma relao fsica saudvel, sem nenhum elo emocional.
Se Marissa estivesse arrependida de ter interrompido as carcias dele, naquele momento no estaria mais. A explicao do que Edward procurava mostrava com clareza a enorme diferena entre eles.
Ela gostava de Edward e estava muitssimo atrada por ele, mas nunca seria uma nuvem passageira de uma noite. Sabia que seu corpo e seu corao no se dissociavam e fazer amor, para Marissa, era muito mais que uma mera interao fsica.
Por alguns minutos, eles comeram em silncio. Enquanto Marissa apreciava a excelente comida, tentava processar tudo o que aprendera sobre Edward.
Ele tivera um filho, que sem dvida amara, e perdera. Sua sensibilidade a fez se comover por ele. Marissa no podia imaginar a existncia sem Nathaniel.
Amar uma criana, como Edward amara, acompanhar um bebe crescer at os trs anos, v-lo aprender e experimentar coisas novas, segur-lo nos braos e nunca mais tornar a v-lo era violento demais.
O choro de Nathaniel interrompeu as conjecturas de Marissa e a refeio deles. Ela pediu licena e foi para a sala ver seu filho, que estava sentado, esfregando os olhinhos.
 Ei, garoto!  cumprimentou-o sorrindo, e o beb esticou os braos para que a me o pegasse.
Marissa o estreitou contra si, apertando com fora. A melancolia pela perda de Edward partia-lhe o corao.
Nathaniel gritou contra o abrao apertado demais, e ela o soltou.
  Aposto que voc est com fome.  Marissa o levou para a cozinha e o sentou entre ela e Edward.
  Ele gosta de comida chinesa?  perguntou Edward, de novo carrancudo.
 Nathaniel come quase tudo.
Marissa retornou a seu assento e deu um pedao de frango na mo do filho. O nen deu uma pequena mordida e sorriu para Edward, como que para provar sua grande experincia culinria.
  Apenas no d os rashis na mo dele, Marissa. Tremo s de pensar nos danos que possa causar.
Marissa ia retrucar, mas desistiu quando olhou para Edward.
O silncio caiu entre eles. Edward usava sua carranca como um escudo de defesa, no permitindo que Marissa ousasse quebrar a quietude que ele impusera.
E, mais uma vez, o silncio prolongou-se.
Marissa pegou-se pensando sobre o filhinho dele. Pelo que Edward lhe contara, ela calculava que Bobby teria quase oito anos agora.
No podia imaginar o que levara Sherry a cortar Edward da vida de seu filho, nem por que a mulher no registrar o garoto com o nome dele. Marissa achava que Edward no queria falar mais do assunto, mas no conseguia evitar. Desejava saber mais.
  Edward?
Ele a fitou, com cautela.
  O qu?
  Por que Sherry no ps seu nome na certido de nascimento dele?  possvel que Bobby no seja seu filho?
Quase se arrependeu do que disse, quando a dor escureceu os olhos dele. Marissa pensou, por um momento, que Edward fosse ficar bravo, mand-la cuidar de sua prpria vida e coloc-la para correr dali. Em vez disso, porm, ele largou os rashis no prato, deu um gole em sua bebida e franziu a testa, pensativo.
 Bobby  meu filho. Tenho absoluta certeza disso. Todo mundo comentava como ramos parecidos. Fora os olhos castanhos, que ele puxou da me, tinha os mesmos traos que eu.
 Ento, por que ela no colocou seu nome na certido de nascimento?
Edward bebeu mais um gole de sua gua e recostou-se no espaldar.
 No tenho certeza. No posso saber o que passava pela cabea de Sherry na poca, mas fiz uma srie de especulaes.
 Mais!  Nathaniel esticou a mo para o frango. Marissa lhe deu outro pedao e voltou a concentrar-se em Edward,
 E o que voc especulou?
 Acho que, quando Bobby nasceu, Sherry j estava decidida a no ficar comigo. Acredito que ela deixou meu nome fora da certido para no haver laos legais, nenhuma briga de custdia, nada que a atasse a mim.
  Mas Sherry no queria que Bobby tivesse um relacionamento com o pai?
Edward sorriu, mas foi um gesto destitudo de humor.
  No gosto de falar mal dos mortos, mas o fato  que Sherry era muito egosta. No refletia sobre o que seria melhor para Bobby, mas sim sobre o melhor para si prpria. Sherry no gostava de discusso de nenhum tipo, e dividir a custdia de Bobby teria sido uma briga.
 Que triste...  Marissa olhou para Nathaniel e suspirou.  Parece injusto que voc queira ser pai e no possa achar seu filho, e eu tenha um filho, cujo pai no quer nem saber dele.
O cinismo curvou os lbios dele.
 Ainda no entendeu que a vida  injusta, Marissa? Que amor no conquista tudo e que sonhos so meras fantasias que a vida lhe d para fazer voc desejar o que nunca se tornar realidade?
 No pode mesmo crer em tudo isso!  Marissa ficou chocada pela veemncia das palavras dele. Afastou seu prato de lado e encarou-o.  Tem de acreditar que ainda haver um final feliz para voc e Bobby. Que o achar, e ento os dois ficaro reunidos.
  Desisti de procur-lo faz dois anos.
  Por qu?!
Edward ergueu-se e levou seu prato para a pia.
 Porque no adiantava mais  respondeu, de costas para ela.  Ningum podia me dizer nada, e eu j estava enlouquecendo.
Virou-se para encar-la, amargurado.
  Sou o melhor detetive particular do Estado inteiro. Minha misso  encontrar pessoas desaparecidas, mas no consigo achar meu prprio filho!
  Mas, Edward...  Marissa levantou-se e levou sua loua at onde ele estava.  Houve tantos avanos nos ltimos dois anos no que diz respeito a meios de comunicao! Tem de voltar para Miami e recomear o processo de procurar Bobby.
 Voc pode viver em seu mundo de fantasias, mas no pea para agir igual, sim?
Se o tom de voz tivesse o poder de matar, Marissa teria cado dura na hora. Reconheceu o desespero dele e desejou peg-lo em seus braos e segur-lo at que ele encontrasse alguma coisa positiva para acreditar.
Mas, claro, aquilo seria uma bobagem. Edward Coffey no significava nada para ela. Marissa no deveria se importar se ele resolvesse passar o resto de seus dias sendo o homem mais amargo, infeliz e solitrio do planeta.
No devia interessar-lhe se Edward tinha esperanas, se acreditava no amor ou se possua sonhos secretos. No deveria se dar a mnima, ainda que o vazio no olhar dele confrangesse sua alma. No deveria ter importncia... mas tinha.
  Olhe, Marissa...  Edward passou a mo por entre os cabelos, sem encar-la.  sei me ajudou muito nos ltimos dias. Digitou meus relatrios, cozinhou para mim e me levou para minha vigia. Estamos quites. Assim, por que voc no volta para suas frias e eu retorno para minha vida?
 Parece um bom plano, para mim.
Era bvio que ele estava pronto para coloc-la fora de seu caminho. E ela, claro, no queria ficar onde no era desejada ou necessria.
Marissa afastou a cadeira de Nathaniel e pegou-o no colo. Ele deu um gritinho de protesto, mas ela o ignorou. O beb ainda no terminara de comer, mas Marissa lhe compraria um hambrguer no caminho para o hotel.
 No esquea a sacola de fraldas  disse Edward,
com expresso dura.
 No se preocupe. Vou me assegurar de no ter nenhum motivo para voltar aqui.  Saiu da cozinha e foi para a sala de estar. Apanhou a sacola e a coberta de Nathaniel do cho e dirigiu-se para a sada.
 Marissa?
Ela virou-se da porta e olhou para Edward.
 Espero que aproveite o resto de suas frias.
 E tudo o que pretendo fazer.  Girou a maaneta e desceu a escada em direo ao carro.
Apenas quando a casa de Edward desapareceu de vista pelo retrovisor, Marissa deu asas ao sofrimento.
Lgico que seu corao doa porque, como enfermeira, ela era treinada para ajudar pessoas. Mas, como enfermeira, aprendera, fazia muito tempo, que existiam pessoas doentes demais para serem ajudadas. E suspeitava que Edward fosse uma dessas.
Edward sofria de uma doena da alma, to devastadora quanto qualquer mal fsico, e at mais difcil de ser tratado.
Alm disso, Edward no era um de seus pacientes. No era nada mais que um homem que conhecera em suas frias, que ocupara seu tempo por menos de uma semana. Estava certa de que nunca mais o veria, mas tinha um terrvel pressentimento de que pensaria nele durante um longo tempo ainda.
Edward sempre se sentira bem no silncio de sua casa. No era um homem que ligava a televiso ou o rdio para no se sentir s. Mas, no momento em que Marissa e Nathaniel partiram, a quietude reinante pressionou-se contra ele com uma intensidade sufocante.
Limpou a cozinha, guardou o resto da comida na geladeira, pegou um copo de ch gelado e foi para o deque. O sol do meio da tarde estava quente, mas gostoso. Sentou-se em uma das cadeiras e observou as ondas que se quebravam.
Bobby adorava gua, amava ficar ao ar livre. Mesmo quando ainda era um bebezinho e ficava nervoso, tudo o que Edward precisava fazer era lev-lo at ali. Ento, a brisa martima e o som rtmico das vagas o acalmavam.
Bobby...
Por que Marissa Criswell tivera de remexer em seu passado, fazendo-o lembrar-se de tudo o que perdera? Ele estava muito bem antes de entrar naquele quarto. Finalmente conseguira reprimir a dor e conformar-se com a perda de seu filho.
Agora, porm, olhando para o oceano, sua tristeza vinha em ondas que espelhavam seu ntimo, devastadoras.
Se sua perna no estivesse engessada, iria correr na praia. Correria at estar cansado demais para raciocinar, exausto para sentir. Entretanto, no momento aquilo no era uma opo.
Edward cerrou as plpebras, decidindo que, se no olhasse as ondas se quebrando na praia, talvez conseguisse parar de pensar em Bobby.
Funcionou. Quase no mesmo instante sua memria foi preenchida pela recordao do beijo que compartilhara com Marissa. Quando embrou-se do gosto doce de sua boca e da sensao dos seios dela contra seu peito, o calor do sol pareceu intensificar-se.
Soubera de antemo que beij-la seria prazeroso. O que no havia calculado era a paixo crua e a volpia absurda que o devorara quando a tivera em seus braos. Evidente que seu desejo por ela devia-se ao fato de ele estar muito tempo sem mulheres. Lgico que no tinha nada a ver com as sardas que danavam no nariz dela ou com aqueles olhos que convidavam um homem a mergulhar fundo.
Seu apetite por ela no podia ser porque Marissa era espirituosa e o fazia rir, como no ria havia anos. No podia ser porque o bom humor era, em um segundo, reposto pela ferocidade de uma leoa, quando se tratava de seu filho.
Sentia falta deles. Tinham sado de sua residncia fazia apenas uma hora, mas Edward sofria com aquela ausncia. Aqueles dois invadiram sua vida, levaram caos e risadas para perto dele, e agora tinham partido. Edward abriu os olhos e, mais uma vez, fitou o mar. Era melhor que tivessem ido embora. No precisava de uma "fadinha" sardenta e seu filho demolidor por perto.
A tarde e o comeo da noite passaram muito devagar. Edward fez alguns telefonemas, adiando os casos que podiam esperar at que tivesse mais mobilidade.
Recebeu uma ligao, informando que Samuel Jacobson concordara em pagar todas as penses atrasadas e continuar dando suporte financeiro a sua ex-mulher.
Edward jantou as sobras de comida chinesa e sentou-se no sof, ligando a televiso. Os seriados eram estpidos, e as risadas fabricadas o irritavam.
Desligou o aparelho, e a quietude voltou a atorment-lo. Por que isso o incomodava tanto agora, quando nunca fora problema antes? Nem queria ousar se dar a resposta.
Por fim, resolveu ir para a cama, onde logo caiu num sono agitado.
Acordou tarde na manh seguinte, e estava sentado  mesa da cozinha, tomando caf, quando uma batida soou  porta.
Edward saltou da cadeira, ansioso. Marissa devia ter achado alguma razo para retornar. Correu, ento, para ir abrir, sorrindo, esperanoso. Em vez de Marissa e Nathaniel, porm, deparou com Maria  soleira.
A decepo que ele sentiu o irritou.
 O que est fazendo aqui, Maria? Achei que tinha ganhado no bingo e sado do pais.  Edward deu um passo para o lado para permitir a entrada dela.
 Eu no sairia do pas sem saber, primeiro, que voc est sendo bem cuidado.
Edward arqueou uma sobrancelha.
 Ah, certo... Quanto perdeu, hein?
Maria foi at a cozinha, serviu-se de uma xcara de caf e sentou-se  mesa, bebendo com petulncia.
  S ia jogar cinco cartelas, mas minha irm me falou para jogar dez. Ela ficou me dizendo que eu iria ganhar...  Ajeitou os cabelos grisalhos.  Minha irm  vidente, sabia?
Apesar de seu humor oscilante, Edward riu e sentou-se diante dela.
Maria pareceu surpresa com a risada dele.
 Agora, tem um som raro nesta casa.  Ela juntou as mos.  Estou tendo uma viso.
 Pensei que a vidente fosse sua irm, e no voc  respondeu Edward, seco.
 Est acontecendo em nossa famlia. De qualquer forma... tenho uma viso de uma mulher de cabelos loiros e curtos e pernas longas. Ela tem um garotinho... um menino loirinho com olhos azuis. Acho que eles trouxeram a risada de volta para c.
Por um instante, Edward ficou impressionado com as palavras dela, ento lembrou-se de que, na manh em que despedira Maria, ela encontrara Marissa na sada.
 Espere, Maria... E tambm estou tendo uma viso. Vejo uma mulher que perdeu no bingo, uma empregada intrometida, tentando convencer o patro a lhe dar seu emprego de volta.
- Ora! Acho que isso prova que ambos somos falsos videntes.
 Ento, quer voltar a trabalhar para mim?
 Voc vai me dar aumento?
  Desta vez, no. J lhe pago o dobro do que se paga para uma faxineira.
 Mas eu valho cada centavo.
Edward achou graa, e perguntou-se como conseguia ficar cercado de tantas mulheres tagarelas. Primeiro, Maria, depois Marissa. Ambas eram teimosas, cheias de opinies e f. Maria acreditava que uma dia iria acertar na loteria ou ganhar muito dinheiro no bingo. Sua confiana nos ganhos fceis era to grande quanto a de Marissa em seu prncipe encantado.
 Eu no me humilho, Edward. Mas, se voc quiser, posso comear a trabalhar aqui agora. Minhas roupas de faxina esto no carro.  Ergueu-se.
  Isso  bom. Vou empacotar algumas coisas no quarto de Bobby, ento tire o p e passe aspirador l.
Maria o encarou, surpresa. Aquele aposento era inacessvel para todos, inclusive para ela.
 Tudo bem. Volto j.
Edward permaneceu sentado, enquanto Maria saiu pela porta. Ele tambm havia surpreendido a si mesmo com o que disse. Porm, dava-se conta agora de que a ideia estivera lhe ocorrendo, bem no fundo de sua mente, durante toda a manh.
Levantando-se rpido, dirigiu-se ao dormitrio de seu filho. Viu os brinquedos que nunca seriam usados, as roupas que agora j estariam muito pequenas para
o garoto.
No havia nenhuma razo para continuar guardando aquilo. Edward sabia que, no dia do aniversrio de Bobby, sairia e compraria alguma coisa apropriada para um menino de oito anos, e que continuaria a coleo, mas no havia motivo em manter coisas para as quais Bobby no tinha mais idade para usufruir.
Daria aquilo tudo para algum que pudesse aproveitar, decidiu, pegando um suter com colarinho jeans e bolsos. Serviria como uma luva para o demolidor...
Um sorriso brotou em seus lbios quando pensou em Nathaniel.
Ele no sabia bem quando ocorrera, mas, de alguma forma, o bebe o conquistara. Nathaniel no possua quase nenhuma semelhana com Bobby, por isso Edward sabia que sua afeio crescente pelo menininho no tinha nada a ver com a transferncia de afetos.
Nathaniel era Nathaniel. Simples assim.
Recolocou o suter na cama e foi para o armrio procurar por uma caixa vazia.
Quando acabasse de guardar os itens ali dentro, ligaria para Marissa e pediria que fosse busc-los.
Recusava-se a reconhecer a alegria em seu peito com a ideia de v-la uma ltima vez.


CAPTULO VII

Marissa acordou com o nascer da manh.
Com  Nathaniel  ainda  dormindo no bero, levantou-se em silncio e preparou caf na cafeteira que o hotel providenciara. Enquanto esperava a bebida coar, tomou banho e vestiu-se.
Minutos depois, com a xcara nas mos, olhou pela janela e tentou decidir como passaria o dia. O sol j apontava no horizonte, prometendo bastante calor, sem nuvens no cu. Mas ficar deitada na praia no lhe apetecia muito.
Ela e Nathaniel tinham estado a tarde inteira da vspera na praia, brincando na areia, construindo castelos e pulando na beira d'gua. O ar fresco e o sol esgotaram a ambos, que, ao retornarem para o hotel, tomaram banho e foram cedo para a cama.
Talvez um passeio turstico, conjeturou. Embora a pequena cidade de Mason Bridge no possusse muito turismo, Marissa vira vrias lojas que pareciam interessantes e exigiam mais explorao.
Foi ento que uma imagem completa de Edward surgiu diante dela, e uma ponta de arrependimento se fez presente em seu corao quando lembrou-se da forma como tinham se separado. Ele ficara bravo, e ela, ofendida. Marissa desejava que eles tivessem se despedido em termos mais amigveis.
Franzindo a testa, tentou, com firmeza, afastar os pensamentos daquele homem. No havia nada a ganhar com aquelas reflexes.
Acabaria suas frias e voltaria para sua vida normal. Edward fora uma diverso interessante, mas nada alm disso.
Marissa conseguiu evitar pensar em Edward, enquanto ela e Nathaniel passeavam de carro pela cidade. Eram mais ou menos duas da tarde quando retornaram para o hotel.
Quase no mesmo instante, o beb caiu no sono, e Marissa comeou a abrir as sacolas de compras.
Achara uma linda caixinha de msica para sua av, que as colecionava. Adquirira para si mesma uma camiseta de dormir muito grande, onde estava escrito "Mason Bridge Beach". S esperava que dormir com aquela pea no evocasse sonhos de certo rapaz de cabelos escuros e olhos azuis...
Depois de guardar a caixa de msica em um compartimento almofadado de sua mala, decidiu ligar para sua av e agradecer-lhe, mais uma vez, por aquele presente incrvel que ganhara.
Quando sentou-se na beirada da cama e alcanou o telefone, viu a luz de mensagens piscando. Apertou o boto para ouvir o recado e ficou surpresa ao escutar a voz de Edward:
 Marissa, sou eu, Edward... Edward Coffey. Hum... voc poderia me ligar?  A mensagem acabou com ele ditando seu nmero.
Marissa guardou-o na memria, mas hesitou antes de discar. Por que Edward teria ligado? Seria possvel que ela tivesse esquecido alguma coisa na residncia dele? Pensou um pouco, mas nada lhe ocorreu
Ento por que Edward a procurara? Ele soava hesitante, muito diferente de seu jeito costumeiro.
 S h um modo de descobrir o que Edward quer  falou para si mesma e discou o nmero dele.  Edward?  disse, quando ele atendeu.  Sou eu.
 Ol, Marissa.
Ela tentou ignorar a forte batida de seu corao, em reao ao som profundo da voz dele.
 Peguei seu recado. O que houve?
 Tenho uma coisa para voc, e achei que poderia vir buscar.
 Alguma coisa para mim?  Ela arqueou as sobrancelhas, imaginando o que poderia ser.
 No  nada de mais. S algumas coisinhas que acho que talvez possam lhe ser teis. Ento, pode vir at aqui?
 Voc quer dizer agora?  Marissa olhou para o filho adormecido.  Nathaniel est dormindo no momento, ento ter que ser mais tarde.
Houve uma longa pausa.
 Por que no vm para jantar, Marissa? Acho que tenho carne no freezer, e posso prepar-la. A menos que voc tenha outros planos.
 No tenho plano nenhum  afirmou, rpido demais. Marissa estava confusa. Edward a expulsara de sua casa. Agora, de repente, queria fazer um jantar para ela?
 Por que voc e o menino no vm por volta das seis? Farei um cachorro-quente para ele.
 Est bem, ento. Ns o veremos s seis horas.
Marissa desligou, mais confusa do que nunca. A sensao era quase como se Edward a tivesse convidado para um encontro. Mas aquilo era tolice.
Ainda assim, ao se aprontar para ir ver Edward, Marissa sentiu que se vestia para um encontro. Ps e tirou diversas roupas diferentes, antes de, por fim, escolher um vestido de vero rosa-claro, que era bastante casual, mas estaria mais elegante do que de short.
Um pouco de rmel, um batom suave e algumas gotas de perfume, e Marissa decidiu estar pronta para ir. Com Nathaniel de short azul-marinho e camiseta branca, e a sacola de fraldas na mo, entrou no carro e dirigiu-se  residncia de Edward.
A medida que se aproximava, tentava controlar seu ritmo cardaco, que se acelerara de antecipao. Edward Coffey era um pessimista mal~humorado, e, pior de tudo, um homem sem esperana, sem sonhos.
Contudo, sabia que teria sido mais fcil apag-lo de sua memria se no tivesse descoberto a razo que o transformara no que era agora.
Apesar de seus inmeros defeitos, Marissa gostava dele. Porm, recusava-se a deixar seus sentimentos em relao a Edward se aprofundarem.
Seu prncipe no seria briguento nem desesperanado. Ela tentara fazer de Bill seu prncipe encantado e no dera certo. E no pretendia passar pela mesma decepo, procurando transformar Edward Coffey.
Quando sua alma gmea aparecesse, Marissa o reconheceria de imediato, e no teria de se preocupar em mud-lo. Ele j seria perfeito.
Contudo, no conseguia explicar a forte excitao que a invadia quando pensava em tornar a v-lo.
 Papai!  disse Nathaniel, quando Marissa o tirou do automvel e comeou a subir a escada.
 No. Edward  Marissa corrigiu-o. Nathaniel riu e apontou para a entrada.
 Papai!  repetiu o garoto.
Marissa bateu na porta. No ia discutir com uma criana de dois anos, mas aquela fixao de Nathaniel por um pai estava comeando a preocup-la.
Edward atendeu, e Marissa prendeu a respirao. Nunca o vira to bonito como naquele momento. Estava de barba feita, com seus cabelos bem penteados. Vestia cala azul-marinho com uma perna cortada para acomodar o gesso, e uma camisa azul-clara de manga curta que realava a profunda colorao de seus olhos. Ele, ao que tudo indicava, desistira das muletas, confiando no salto do gesso.
 Bem na hora!  Edward deu-lhes passagem.
Marissa foi recebida pelo aroma de limpeza, e, quando eles entraram na sala, notou de imediato que o local fora muito bem limpo e arrumado.
  Sua casa est urna beleza, Edward!
 Maria veio ontem. 
Marissa ps Nathaniel no cho.
 Teve de dar-lhe um aumento? 
Edward achou graa.
 No. Tive sorte desta vez. Maria perdeu dinheiro no bingo e estava desesperada para voltar. Venha para a cozinha.
Marissa pegou a mo de Nathaniel, e os trs foram juntos para l, onde Edward estivera tentando fazer uma salada.
Marissa abriu a sacola do filho e lhe deu vrios brinquedos. Nathaniel sentou-se no piso, parecendo contentssimo.
 Por que no me deixa fazer isso?  sugeriu ela, apontando para os ingredientes da salada.
 Certo. Tenho de confessar que usar faca com uma s mo me deixa um pouco nervoso. Que tal uma taa de vinho?
 Excelente ideia!
Havia uma estranha formalidade entre eles que no estivera presente antes, e Marissa no sabia bem o que causara aquilo.
 Aqui est.  Edward colocou a bebida ao lado dela, que cortava pimentes verdes.  As batatas j esto assando na grelha, e o carvo est quase pronto para os bifes.
 Muito bem. Quando terminar com a salada, voc quer que eu arrume a mesa?
 J fiz isso. Pensei em comermos no deque.
Marissa assentiu com um movimento de cabea. Acabou de picar o pimento e os acrescentou s verduras que Edward j preparara.
 Mais alguma coisa?
 No, Marissa.  s isso. Por que no vamos para o deque e eu ponho os bifes na churrasqueira?
 Est bem.
Eles precisaram de trs viagens para levar tudo que usariam da cozinha para o deque. Mas, enfim, se acomodaram. Marissa sentada  mesa, Edward em p, prximo  churrasqueira, e Nathaniel, no cho, entretido com seus brinquedos.
 Como voc gosta de seu bife?
 No ponto.  Marissa deu um gole no vinho, tentando entender o porqu de o ar estar pesado entre eles e por que estavam agindo como estranhos que no sabiam nada um do outro.
Alguma coisa mudara entre os dois, e isso a deixava nervosa.
Marissa bebeu mais um pouco do vinho e o estudou enquanto Edward mexia os bifes da grelha. Ser que aquela tenso estaria vindo dele? Seria porque ela conhecera os segredos de seu passado, a fonte de sua dor?
Marissa sabia que Edward compartilhara a informao sobre Sherry e Bobby com muita relutncia e, talvez, nunca o tivesse feito se ela no houvesse, sem querer, descoberto aquele quarto.
Ainda assim, no acreditava que aquele fosse o motivo de tamanha tenso nas entrelinhas.
Os bifes chiaram, e a atmosfera encheu-se do cheiro da carne assando. Edward se afastou da churrasqueira e sentou-se numa cadeira ao lado dela. 
Quando o fez, sua perna roou na dela, e, de repente, Marissa soube o que causara a mudana entre eles. O beijo. Aflorou com fora total a lembrana da boca mscula na sua... quente... sedenta... necessitada. Aquela carcia tinha tocado o fundo de sua alma, mexido com ela como nenhuma outra que experimentara antes.
Deu-se conta de que no era desconforto o que sentia, mas sim tenso. Tenso sexual crua. Cada nervo trepidava, e Marissa no conseguia tirar aquele beijo da mente.
E o que mais a incomodava era que desejava muito que Edward a beijasse de novo, antes de a noite terminar.
Marissa no apenas tinha sardas na ponta de seu nariz, como tambm possua um respingo de pintinhas flamejantes no colo. Edward notou-as quando ela inclinou-se para fazer um carinho na cabea de Nathaniel. O movimento exps no apenas as sardas, mas um vislumbre de segmentao das curvas arredondadas entre seus seios. Por um momento, Edward teve muito em comum com o carvo incandescente na churrasqueira. Ele se sentia em brasas. Beij-la fora um tremendo erro. No importava o quanto tentasse, no conseguia tirar o gosto da boca de Marissa da sua, no podia livrar-se da sensao das formas quentes pressionadas contra as suas.
Edward focou a ateno nos bifes, perguntando-se que loucura o incitara a convid-la para jantar. Tudo o que pretendera era que ela fosse l buscar as coisas de Bobby que Nathaniel poderia usar. Mas quando Marissa ligou, ele pegou-se estendendo o convite para aquela refeio.
Tinha sido mais fcil do que supusera empacotar alguns dos presentes para Bobby. Enquanto ia pondo tudo nas caixas, recordaes o acometiam, doces memrias do adorvel Bobby, de ter sido amado por seu filho.
No comeo, lutara contra essas lembranas, tesouros indesejveis de uma poca que no mais existia. Entretanto, acabou cedendo a elas e surpreendeu-se por, embora houvesse tristeza atada a seu gesto, haver tambm uma incrvel alegria.
 Voc est muito quieto, Edward. Sua perna est doendo? Talvez seja cedo para andar com o salto.
  No, eu estou bem.  Bateu no gesso. - Acho que s estava concentrado em fazer esta carne direito.
Marissa sorriu, e o calor de seu sorriso o arrepiou de cirna abaixo.
 Precisa de tanta concentrao para assar um bife?
 Voc ficaria surpresa com o que posso fazer quando me meto a cozinhar.
   to ruim assim?
  Terrvel. Um desastre total. Os vira-latas no remexem meu lixo porque tm medo de achar as sobras das refeies que preparo.
Rindo, Marissa pegou o copo de vinho, deixou a mesa e juntou-se a ele na churrasqueira.
  Talvez seja melhor eu supervisionar... s por segurana.
Ficou em p, perto dele o bastante para sentir seu aroma. Edward notava, sem esforo algum, o magnetismo de Marissa como se fosse matria slida.
Ah, sim, beij-la tinha sido um grande erro... Antes do beijo, ela fora uma otimista irritante, uma ajuda necessria. Mas no momento, tudo em que ele pensava era que Marissa era uma mulher muitssimo atraente, que beijava com ardor e paixo, e que mexera com ele.
  Edward,  melhor vir-los.
A voz dela o tirou de seus devaneios, e Edward a encarou.
 Os bifes... Esto comeando a queimar. Edward os virou rpido, sentindo o olhar dela demorando-se nele.
  Tem certeza que est bem?  perguntou ela, com uma expresso preocupada.
  Estou, sim. S um pouco distrado.
  Pensando sobre um de seus casos? Se precisar que eu o leve a algum outro lugar ou que digite mais relatrios, ficarei feliz em faz-lo.
  No. J me aproveitei muito de voc.  Acrescentou uma salchicha  churrasqueira e a fitou.
  Eu me aproveitei de sua culpa do que no passou de um acidente.
Marissa esboou um largo sorriso.
 Voc no pode ter se aproveitado disso, porque no me senti culpada. Porm, julguei-me responsvel, de alguma forma.  Ela deu uma olhada rpida para seu filho.  Deveria ter vigiado Nathaniel melhor. Ele costuma ser uma criana muito tranquila. Sempre fica onde o coloco. No sei o que deu nele para resolver vagar pela praia, naquele dia.
Edward olhou para Nathaniel, que estava sentado no piso do deque, parecendo muito feliz com os blocos de construo que o cercavam.
 , Nate parece mais quietinho do que a maioria dos garotos de sua idade.
 Em minha experincia, h dois tipos de crianas de dois anos: os exploradores e os pensadores. Nathaniel  um pensador.  Marissa inclinou a cabea para um lado, fazendo ver seus olhos de um verde suave como folhas novas.  De que tipo era Bobby?
Por apenas um segundo, as defesas de Edward ativaram-se, e o primeiro mpeto foi o de falar que no era da conta dela, que aquele era um tabu e que ele no queria discutir o assunto.
To rpido quanto veio, o impulso desapareceu. Por cinco longos anos, no falara sobre Bobby com ningum. Alm das datas de aniversrio e outras, Edward fingia que Bobby nunca existira, porque era mais fcil.
De repente, pela primeira vez desde que Sherry levara seu filho embora, Edward queria falar sobre o garoto que perdera.
  Bobby era um explorador em tudo.  Edward removeu os bifes e a salchicha da churrasqueira.  No se podia virar as costas para ele um instante sequer  continuou ele, quando acomodavam-se  mesa para comer.
 Minha irm tem um filho assim  disse Marissa, picando a salchicha de Nathaniel em rodelinhas.
Edward a olhou, curioso.
 Quantos irmos e irms voc tem?
 Uma irm mais nova.
 E ela  uma eterna otimsta como voc?
 E ainda pior que eu. Sandra casou-se com seu namorado do colegial e construram uma vida maravilhosa juntos. Eles se amam loucamente e so apaixonados por seus dois filhos.
Marissa tinha um olhar doce e sonhador ao dizer aquilo, e Edward sabia que ela estava imaginando sua alma gmea e a unio que construiria com ela.
Por um breve momento, a inveja o dominou, quando pensou no homem que, talvez urn dia, iria possuir o amor de Marissa, que passaria todos os dias rindo ao
lado dela, amando-a.
  Deve ser gentico  respondeu ele.
Ela riu.
 Acho que voc tem algumas dessas falhas genticas, Edward Coffey.
 Por favor, no vamos entrar nesse assunto.
 Ento vamos combinar que voc no fala de minhas falhas, e eu no falo das suas.
 Combinado.
O resto da refeio prosseguiu tranquila.
Quando o sol, pouco a pouco, mergulhou no horizonte, Edward falou de alguns de seus casos prvios, exagerando em alguns elementos engraados, s para ouvir a linda msica da risada de Marissa.
E falou sobre Bobby. Contou como o menininho amava o som das ondas do oceano. Como adorava ccegas na barriga e danava com qualquer msica. Falar sobre ele causava deleite e melancolia, mas Edward empurrou a dor para o lado e mergulhou na alegria que aquelas recordaes traziam a seu corao.
Nathaniel comeu seu cachorro-quente e apontou para o prato de Edward.
  Mais  disse ele.
  Aqui, Nathaniel. Voc pode comer um pouco do meu.  Marissa cortou uma batata e colocou-a no prato do pequeno.
 No.  Nathaniel balanou a cabea e tornou a apontar para o prato de Edward.  Papai, mais. Papai... 
Como sempre, a palavra entristecia Edward.
 Nathaniel, o que voc quer, Filho? Bife?  Rpido, Marissa cortou pedaos de bife e adicionou  batata, no prato dele.
 No! No, mame. Papai, mais.
Edward sentiu uma incrvel emoo presa em sua garganta.
 Acho que ele quer do meu prato.  Ele cortou um pedao de batata e ps no prato do menino.
Nathaniel ofereceu-lhe um sorriso enorme. Ento, esticou sua mozinha e alisou o brao de Edward. Depois, agarrou o pedao de batata e enfiou-o na boca.
Edward se emocionou de novo. Aquele garotnho precisava muito de um pai, e aquela necessidade que brilhava em seus olhos fora mostrada no toque fsico de Nathaniel.
Em uma outra encarnao, talvez Edward pudesse ser capaz de preencher as necessidades de Nathaniel. Mas no nessa. No estando ele cheio de memrias de outro menino.
Quando Sherry levou Bobby embora, carregou consigo tambm o corao de Edward, no deixando para trs nada que valesse a pena para beneficiar outra pessoa.
Em uma outra existncia, Edward poderia entregar-se a Nathaniel. Mas nessa, no possua mais amor dentro de si para doar.


CAPITULO VIII

Ao ver que Marissa lavava a loua do jantar, Edward a surpreendeu dizendo:
 Andei pensando sobre seus conselhos em talvez contatar os servios sociais em Miami outra vez.
  mesmo?  Uma grande alegria apossou-se de Marissa, no s pelas palavras dele, mas pelo que elas implicavam.  Quando?
  No sei. Assim que eu puder ir para l. No quero fazer isso por telefone.  to fcil ignorar um telefonema...
 Posso lev-lo at Miami  prontificou-se.  So s quatro horas de carro. Poderemos ir amanh. 
Edward franziu a testa.
  No posso lhe pedir isso. Esse  meu negcio, minha vida, e, alm do mais, j roubei muito tempo de suas frias.
Ela virou-se para olh-lo.
 No me importo, Edward. De verdade. E tinha mesmo planejado uma pequena viagem para l.
Ele a fitou, desconfiado.
 Por que algum planejaria dar uma passada naquela cidade?
 Ia levar Nathaniel ao Aqurio.
Era uma meia verdade. Marissa havia mesmo lido um panfleto sobre atraes tursticas, mas no decidira realmente fazer a viagem.
Percebeu que Edward no acreditou nela. Ele meneou a cabea e ento ficou a estud-la por um longo momento. Depois, veio o cinismo frio, a dura defensiva.
 Por que est fazendo isso, Marissa? Por que est deixando de se divertir para ficar cuidando de meus interesses?
Marissa buscou em seu crebro por uma resposta irreverente, mas nenhuma surgiu. "Porque, por mais louco que pudesse parecer, em poucos dias passei a me importar com voc, Edward." A frase brincava na mente dela, mas no a pronunciaria em voz alta.
 No sei  disse ela, por fim.  Apesar de suas muitas falhas, gosto de ficar a seu lado.
Edward desviou o olhar dela e pegou a saladeira.
 Tudo isso prova que voc tambm tem grandes falhas.  Cobriu a salada e colocou-a na geladeira. Ento, fitou-a de novo.  As vezes fico mal-humorado em longas viagens de carro.
 Ora! Sendo assim, pode ir no porta-malas, porque no aguento passageiros rabugentos.
Ele sorriu de um modo infantil, e Marissa teve a sensao de que alguma coisa frgil e maravilhosa conectava-se entre os dois. Aquilo a confundiu. Sentia-se feliz e assustada.
Edward tambm sentira a mesma coisa. Marissa podia ler isso no semblante dele, e sabia que ele, por instantes, esteve mergulhado na mesma estranha magia.
O sorriso de Edward esvaiu-se.
 Vou buscar o que separei para voc, Marissa. Sei que est quase na hora de Nate ir dormir, e h de querer voltar para o hotel.
  Sim, est ficando tarde.  Marissa pegou Nathaniel e seguiu Edward para a sala de estar.
  Espere aqui. Volto j.  E desapareceu pelo corredor.
Marissa sentou-se no sof com Nathaniel no colo. Nunca estivera to perplexa em relao a um homem como com Edward. Ele parecia convid-la a se aproximar, para logo depois mand-la embora.
Marissa gostava dele, e ficara impressionada ao reconhecer isso. Como Edward Coffey tornara-se to importante num perodo to curto?
Ela se deu conta de que, com a deciso dele de voltar para Miami para procurar Bobby, Edward dera um grande passo. Se pudesse, faria o possvel para que a busca alcanasse xito e para que tivesse de volta o que perdera um dia.
Mas Mariasa no tinha isso em seu poder. E o sucesso ou fracasso de Edward nessa questo no tinha nada a ver com a vida dela.
Em menos de duas semanas estaria de volta ao Kansas, imersa na rotina diria de me solteira, esforando-se para oferecer a seu filho conforto e dedicao. Edward retornou, carregando duas caixas grandes.
 O que  tudo isso? Ele as colocou no cho.
 D uma olhada.
Marissa ps Nathaniel no tapete e se levantou, enquanto Edward sentava numa cadeira perto. Abriu as abas da caixa e viu uma variedade de brinquedos em seu interior. No mesmo instante os reconheceu. Eram de Bobby.
Marissa encarou-o.
 Tem certeza de que quer fazer isso, Edward?
 No h nenhuma razo para mante-los aqui. Mesmo se Bobby, de uma hora para outra, surgisse do nada, j estaria muito grande para essas coisas.
Nathaniel se inclinou para a frente Seu rosto iluminou-se quando viu um grande caminho de bombeiro.
  Camio!  O bebe bateu palmas de excitao, enquanto Marissa tirava o brinquedo e colocava-o diante dele.
Com Nathaniel entretido, Marissa tirou abriu o outro recipiente. Ali encontrou roupas. Ainda estavam com etiquetas, todas de marcas caras.
- Tem uma variedade de tamanhos a. A maioria entre dois e quatro anos.
 Nem sei o que dizer, Edward... Obrigada. Edward deu de ombros.
  Se no as desse a voc, decerto as daria para uma instituio de caridade. Estava na hora de fazer essa limpeza.
Embora a entonao dele soasse distante, Marissa sabia a enorme dor que devia t-lo sufocado ao empacotar os itens.
Por um minuto, a melancolia dele tornou-se dela. Marissa pegou uma pequena cala jeans e deslizou a mo pelo tecido, esperando controlar a emoo.
 Talvez em Miami voc ache algumas respostas e encontre Bobby  disse ela, amvel.
As ris azuis de Edward esfriaram.
 No tenho muita esperana. Entretanto, creio que preciso fazer uma ltima tentativa antes de esquecer o assunto por completo.  Deixou a cadeira.  Diferente de voc, parei de procurar finais felizes h muito tempo.
Marissa sabia, no ntimo, que aquele no era o momento de protestar o contrrio.
 Sei que algumas vezes no existe final feliz, Edward. E que a vida nem sempre  justa, e h ocasies em que os maus vencem.  Fechou as abas da caixa e se ergueu.
Edward olhou para ela, desconfiado.
 Voc teve um relacionamento ruim com um homem que a abandonou grvida. O que entende sobre a verdadeira dor de um corao?
Sem aviso, a raiva dominou Marissa.
 Escute aqui, Edward, acha mesmo que sabe tudo sobre sofrimento, ?! Quando eu tinha dez anos, minha me morreu. Meu pai j era divorciado dela e quase nunca vinha nos ver.
 Voc nunca me contou isso...
 Por que contaria? Tem muitas coisas sobre mim que voc no sabe.  Marissa cerrou as plpebras por um segundo, e a ira pouco a pouco desapareceu.  Aprendi muito cedo que temos duas opes, e ambas so definitivas. Ou escolhemos ser felizes ou optamos pela infelicidade. Ou lutamos ou desistimos. Voc tem de decidir que tipo de homem , um sobrevivente ou uma vtima do destino.
 Acabou?  perguntou ele, os cantos de seus lbios curvando-se num meio sorriso. Marissa corou.
 No sei dizer.  Ela ajeitou os cabelos.  Acho que, por hora, terminei.
  Otimo. Quer um caf? Podemos nos sentar no deque para beb-lo.
Marissa hesitou. Adoraria aceitar o convite, e ficar admirando a dana da lua sobre o mar e aproveitar esses instantes com Edward. Porm, a seduo da cena era muito... muito perigosa.
  melhor eu voltar para o hotel. J passou da hora de Nathaniel dormir. Alm disso, se vamos mesmo a Miami amanh, teremos que acordar cedo, no?
 Sim, tem razo.
Ela olhou para as caixas e ento para Nathaniel, que ainda empurrava o carro de bombeiros de l para c, fazendo barulhos com a boca.
  Pode dar uma olhada nele enquanto levo tudo isso para o automvel?
 Sim, Marissa. Desculpe-me por no poder ajud-la. Ela sorriu,
 Tudo bem, eu me arranjo.
Marissa pegou a primeira caixa e foi para a porta da frente, tentando no pensar sobre o quanto gostaria de dizer.
De alguma maneira, nas ltimas vinte e quatro horas, seu relacionamento com Edward se aprofundara, transformando-se de um leve conhecimento em algo mais do que significativo.
Se fosse mais esperta, fugiria. Retiraria sua oferta de lev-lo a Miami no dia seguinte e pararia de v-lo por completo.
Quando ps a segunda caixa dentro do porta-malas, perguntou-se por que no pretendia ser esperta...
 Sr. Coffey, por acaso lembra-se da pessoa com a qual falou quando veio aqui antes? - Brbara Klein ofereceu uma expresso de esperana a Edward.  No  necessrio que eu saiba, mas  possvel que possa existir algum documento em nossos arquivos.
Edward arqueou uma sobrancelha, tentando recordar aquela poca, quando fora ao servio social de Miami buscar informaes sobre seu filho.
  Green. O ltimo nome dela era Green. Mas eu no me lembro do primeiro nome.
 Elzabeth  Brbara afirmou. - - Ela s esteve conosco por alguns meses. Teve um pequeno problema com a bebida...
Edward riu com um toque de ironia amarga.
  Suponho que seja por isso que no fez um bom acompanhamento do caso.
Ao sentir a tenso dele, Marissa aproximou-se e pegou sua mo.
Aquele gesto em si no o assustou muito. O que o surpreendeu foi como a sensao tinha sido boa. A fora e o apoio que o gesto lhe conferiu enviou um imenso calor para seu corao.
O telefone na mesa tocou, e Brbara o atendeu. Quando desligou, sorriu para eles, desculpando-se.
 Alguma coisa precisa de minha ateno. Se me derem licena, prometo voltar logo.  E saiu da sala, fechando a porta atrs de si.
Edward, muito gentil, soltou-se de Marissa e levantou-se.
 Que falta de sorte a minha ter cado justo nas mos de uma alcolatra. - Suspirou, aborrecido.
- Brbara Klein parece no ter o mesmo problema, Edward. Assim, talvez, enfim, voc obtenha algumas respostas.
A irritao aflorou dentro de Edward, um sentimento que ele passara toda a manh tentando conter. E sabia muito bem o que estava causando isso: frustrao sexual.
Passara a manh trancado no carro com Marissa, onde o aroma dela enchera o ar, e a proximidade o provocara.
Quando a convidara para tomar caf com ele, na vspera, o que queria, na verdade, era que Marissa passasse a noite l e tomasse o desjejum em sua companhia.
Desejara que ela dormisse em sua cama, em seus braos, aps terem feito um amor selvagem e apaixonado. Quisera admirar o sol da manh brilhando naqueles lindos cabelos dourados, enquanto ele estaria acordando com as doces e quentes carcias dela.
Edward afundou-se na cadeira quando Brbara tornou a entrar no pequeno escritrio.
 Agora, vamos pegar algumas informaes sobre voc, Sr. Coffey. Veremos o que posso descobrir.
Durante a hora seguinte, Edward deu a Brbara Klein informaes pertinentes sobre sua relao com Sherry e seu desejo de ter Bobby de volta para si.
  Muito bem. Acho que basta. - Brbara fitou Edward por vrios minutos.  Foi uma infelicidade que Elizabeth Green tenha sido seu contato prvio. Entendo que voc j esperou muito, mas ainda vai levar mais algumas semanas antes que eu possa lhe dizer algo especfico.
Ela se ergueu.
- No podemos dar informaes sobre nossas crianas para qualquer um que entre por esta porta, sr. Coffey. Sendo assim, teremos de analisar todo o processo antes. Espero que compreenda.
Edward e Marissa levantaram-se tambm, as pernas de Nathaniel em volta da cintura da me.
 Ento, posso esperar notcias nas prximas semanas? 
Brbara ofereceu-lhe um sorriso caloroso.
 Tem minha palavra.
Quando eles saram do prdio e passaram a caminhar na tarde ensolarada de Miami, Edward sentiu-se triste. J sabia que no deveria esperar nada daquele encontro. Mas a esperana que carregara consigo desaparecera naquele momento.
 Voc est bem?  Marissa quis saber, quando eles entraram no automvel.
 Claro. Vamos apenas esperar que Brbara Klein no desenvolva o hbito de beber entre hoje e as prximas semanas.
 No se preocupe com isso. Ela me pareceu muito profissional.  Marissa o encarou.  Sei que hoje no foi fcil para voc. Talvez devssemos voltar para Mason Bridge, agora.
 Bobagem!  Abanou uma mo.  Iremos para o Aqurio, conforme o planejado. Nate quer ver os peixes.
Edward gostaria que Marissa parasse de se importar com seu bem-estar. Quando ela o olhava com aqueles grandes olhos verdes cheios de preocupao, tudo em que podia pensar era em peg-la em seus braos e abandonar-se  volpia.
  Certo. Ento, ao Aqurio!  E Marissa ligando o motor.
Passaram duas horas vendo a performance de golfinhos e baleias, aprendendo sobre vrias espcies de peixes e comendo salgadinhos e doces.
Eram cinco da tarde quando comearam a voltar para Mason Bridge.
Viajaram em relativo silncio, vez ou outra quebrado por Nathaniel, que apontava para a janela e ria, desfiando seu repertrio muitas vezes ininteligvel.
Mais uma vez, Edward encontrava-se lutando contra seu desejo por Marissa. Observara-a cheio de ambio no Aqurio. A risada dela mexia com ele, e seu sorriso aquecia o sangue em suas veias. Sua energia e entusiasmo naturais o alimentavam.
Observava a paisagem, imaginando se seria possvel que o destino tivesse jogado Marissa Criswell em seu caminho apenas para enlouquec-lo.
  Ento, Marissa, fale-me o que no sei sobre voc  pediu, de repente. Talvez, se conversassem, conseguisse evitar pensar no quanto desejava fazer amor com ela,
 Como?
 Ontem  noite, me disse que havia coisas a seu respeito que eu nem imaginava. Conte-me agora.  Edward tentava desviar o olhar para no notar como o sol da tarde iluminava as feies dela com um brilho fantstico.
Marissa deu uma rpida olhada para ele e riu.  Isso parece uma ordem! O que exatamente quer saber?
Edward queria saber por que a risada dela parecia envolv-lo como um cobertor aconchegante numa noite fria. E entender por que seu cheiro levava-o s alturas. E por que Marissa estava to certa de que ele no era o seu prncipe encantado.
E compreender que queria tudo aquilo o apavorava at a alma.
 No sei... A av que lhe deu esta viagem de presente foi quem criou voc? Aquele parecia um tpico seguro.
 Sim. Vov pegou minha irm e eu e nos proporcionou um lar amoroso. Mas sempre senti um vazio no peito pela ausncia de minha me.
Edward assentiu. Sim, era aquilo que sentia em relao  ausncia de Bobby. Um vazio no peito.
 O pai de Nate... Voc o amou?
Ela hesitou por um segundo, antes de responder:
 Na poca, achei que sim. Mas agora percebo que estava apaixonada pela ideia de estar apaixonada. Minha irm mais nova j estava casada e feliz, com dois filhos, e eu havia terminado os estudos e me sentia solitria e isolada.
 Ento o prncipe encantado apareceu e voc soube no mesmo instante que lhe pertencia.
Marissa percebeu a zombaria de Edward, vrou-se e mostrou a lngua para ele, que deu risada.
 Quando conheci Bill, tinha algumas reservas. Ele andava com um grupo de sujeitos estranhos e ia a boates de frequncia duvidosa. Gostava de rock pesado e tinha um aparelho de som no carro que podia ser usado para pagar um ano de aluguel de uma residncia. Eu o fiz se sentir terrvel, mas Bill no era de todo ruim.
Marissa franziu a testa, pensativa.
 Bill fazia com que eu me achasse bonita e desejvel. E preenchia minha solido. Pensei que aquilo fosse amor, mas no era.
Edward indagou-se se ele era capaz de faz-la se sentir bonita e de preencher sua solido. Seria sua vida solitria que a fazia gastar o tempo de suas frias com ele?
 E quanto a voc e Sherry, Edward? Disse-me que a pediu em casamento. Estava apaixonado?
Aquela era a vez de Edward de contemplar aquele relacionamento antigo.
 Confesso que no, Marissa. Eu gostava dela. E tinha considerao por Sherry por ser a me de meu filho, mas no senti paixo. Creio que ela sabia disso, e por essa razo recusou-se a casar comigo.
De novo o silncio caiu, enquanto Edward tentava organizar aquelas emoes conflitantes em relao a Marissa.
Por que era to surpreendente que a desejasse no nvel fsico? Afinal, ela era muito atraente, com suas formas suculentas. Fazia muito tempo que estivera com uma mulher, e era bvio que se ressentisse da abstinncia.
Edward recusava-se a considerar que seu desejo por Marissa pudesse ser mais complicado do que aquilo.
Eram nove horas quando estacionaram na frente da casa de Edward. A noite os cercava, e o cu estava forrado de estrelas.
  Por que no entra e toma aquele caf que no tomou ontem?  convidou Edward. Sabia que no tornaria a v-la.
Marissa desligou o motor e virou-se para olhar Nathaniel, que acabara de dormir minutos antes. Edward notou sua hesitao.
 Voc pode carreg-lo e coloc-lo no bero.
 Est bem. Um caf.
Em instantes, Edward assistia Marissa colocando Nathanel, ainda dormindo, no bero onde Bobby um dia dormira.
Marissa beijou o menino e o colocou uma manta sobre ele. Vendo o amor que se irradiava de Marissa por seu filho, Edward sentiu um aperto no corao.
Algum estaria cobrindo Bobby naquele momento? Beijando sua testa e passando-lhe segurana? Edward rezava a Deus para que sim. Imaginar seu menino sozinho no escuro, assustado ou infeliz, atormentava-o.
Saiu do quarto e foi para a cozinha preparar o eaf. Tinha de tirar Bobby da cabea. Caso contrrio, a incerteza o deixaria louco.
  Ele nem se mexeu  disse Marissa, entrando na cozinha.
Edward assentiu com um movimento tnue.
 O caf estar pronto em um minuto.
Marissa o observou por minutos, seus olhos, um verde suave que fazia com que ele quisesse mergulhar em suas profundezas.
  Deve ser muito difcil para voc ficar perto de Nathaniel.
 Estou aprendendo a conviver com o medo de danos corporais toda vez que estou prximo dele.  Edward esperava que um sorriso aparecesse nos lbios dela. 
Marissa no sorriu, entretanto, e continuou a fit-lo.
 Estou falando srio, Edward. No havia pensado nisso at agora.
Edward pegou duas xcaras do armrio e se virou para encar-la.
 Foi duro... no comeo. Nate est muito perto da idade de Bobby, quando o perdi. Toda vez que ele me tocava ou olhava para mim, trazia o ressentimento
de volta.
 Perdoe-me. Eu deveria ter pensado... Edward levantou uma mo para interromp-la.
 Por favor, no se desculpe. Junto com a dor, Nate me fez recordar a alegria. Aconteceu de, nos ltimos dias, Nate parar de me lembrar Bobby, tornando-se apenas Nate. Um pequeno ser com seus prprios direitos.  Sorriu.  Diga, como quer seu caf?
 Preto est bom.
 Vamos torn-lo no deque?
Marissa assentiu com um movimento de cabea, e juntos levaram suas xcaras pelo hall e para dentro do quarto dele.
Ao abrir as portas de vidro, Edward evitou olhar para a cama, tentando no imaginar-se l com Marissa nua em seus braos.
A noite estava quente, mas a brisa que vinha do mar tornava-a agradvel. A lua iluminava o deque com um brilho leve e suave.
Marissa sentou-se  mesa, e Edward acomodou-se ao lado dela. Estava linda na plida luminosidade, e ele podia sentir o aroma de seu perfume floral.
Tomou um gole e ento esboou um largo sorriso para ela.
 Sei que j lhe agradeci diversas vezes, mas eu queria agradecer de novo... Por hoje, pela viagem a Miami.
 S espero que alguma coisa boa advenha disso.  Marissa colocou a mo no brao dele.  Seria lindo para mim saber que voc e Bobby esto juntos, porque pertencem um ao outro.
Edward ergueu-se e foi para a cerca. Estudou o oceano, no querendo permitir que o que acabara de ouvir de Marissa achasse o caminho para dentro de seu corao. Ela foi at ele, olhando para a praia. 
 E to lindo este lugar, Edward... Deve ser maravilhoso ver o nascer do sol daqui.
Os olhos deles se encontraram ao mesmo tempo. Edward no sabia se tinha dado o primeiro passo em direo a Marissa ou se fora ela quem se movera para ele. Apenas entendeu que, de repente, Marissa estava em seus braos, e ele estava mergulhado na doura dos seus lbios.
Marissa no lutou contra aquele beijo. Cedeu a sua boca como se estivesse sedenta, to necessitada quanto Edward. Enlaando-a, Edward puxou-a com mais intimidade contra si, e pde sentir a respirao ofegante dela contra sua boca.
Deslizando os dedos pelas delicadas costas de Marissa, ele aprofundou a carcia. Suas lnguas danavam em um ritmo frentico de volpia.
A brisa martima no fazia nada para esfriar a febre que se apossara de Edward. Ao contrrio, apenas aumentava suas chamas interiores.
Ele deslizou as palmas pelo decote de trs do vestido dela, sentindo a pele sedosa palpitando de paixo. Apossava-se mais e mais da boca de Marissa, matando sua sede e permitindo que a doura e a quentura dela corressem atravs dele.
Por fim, com relutncia, Edward parou de beij-la e encarou-a com uma nsia enlouquecida.
 Fique, Marissa. Passe a noite aqui e assista ao nascer do sol comigo.
Ele viu o desejo dela irradiando de suas pupilas e, mais uma vez, seus lbios envolveram os de Marissa com uma fria intensa. No podia se lembrar de ter desejado tanto uma mulher quanto desejava Marissa naquele momento. E tinha certeza de que ela o queria com a mesma louca intensidade.
Estavam ambos sem flego.
 Fique Marissa  sussurrou.
Edward acariciou sua face, e ela fechou os olhos por um momento, como se achasse o toque dele mais do que podia aguentar.
 Deixe-me fazer amor com voc, segur-la em meus braos. Fique aqui comigo, Marissa.


CAPITULO IX

No havia nada que Marissa desejasse mais do que abandonar-se ao encanto de Edward, em geus braos, a seu toque, entregar-se a seus beijos famintos. E por um momento permitiu-se cair, gloriosa, na paixo que a dominava.
Concebeu ser invadida pelas chamas dos beijos dele e pela febre de seu corpo.
A noite estava propcia para o romance, com a leve brisa que mexia, com muita sensualidade, com seus braos e pernas nuas. No esplendor das estrelas, os beijos de Edward eram to ardentes que Marissa sentia como se estivesse se derretendo, todas as vezes que suas bocas se tocavam.
No entanto, quando olhou nos olhos dele, to brilhantes, to cheios de paixo, reconheceu, apavorada, que queria mais que apenas algumas horas quentes com Edward Coffey.
Mais que uma lembrana de frias. Queria uma vida inteira com ele. De alguma forma, em uma nica semana, apaixonara-se por Edward Coffey. Deixou os braos carem do pescoo dele e deu um passo para trs, atordoada pela percepo de que, de alguma forma, ele havia se transformado em seu prncipe encantado.
 Marissa?  Edward a encarou, confuso.  O que aconteceu?
 Nada... eu...  Ela no sabia o que fazer. Estava paralisada e sem palavras, pelas emoes que tomavam conta de seu ser.
Amava Edward. Amava-o com todo seu corao. No havia engano no que sentia.
 Ofendi voc? Fui rpido demais?  Edward praguejou, baixinho.  Desculpe-me. Estou to sem prtica! Pensei que estivesse se sentindo do mesmo jeito que eu, Marissa. Imaginei que me desejasse tanto quanto a desejo. Pelo jeito, eu estava enganado.
 No. No est enganado.  Marissa ergueu os dedos trmulos at o prprio peito.  Quero voc, Edward. No h nada que eu queira mais do que cair naquela cama em sua companhia. Desejo-o como nunca desejei algum.
 Ento, no entendo...
 Sei que voc no entende.  Marissa sentiu vontade de correr, fugir, antes que fizesse papel de completa idiota.
Como isso poderia ter acontecido? Como Edward tomara conta de seus sentimentos e de sua alma de maneira to definitiva? Virou-se e deixou o deque.
Edward a seguiu e alcanou antes que ela pudesse deixar o quarto. Segurando seu brao, obrigou-a a olhar para ele.
 Marissa, espere. Deixe-me compreender.  Edward procurava por respostas no semblante dela.
Marissa fitou o leito. O lenol azul-marinho estava um pouco amarrotado, e um dos travesseiros ainda tinha a marca dele.
As cobertas teriam o cheiro de Edward e, num timo, ocorreu-lhe a viso dos dois sob aqueles lenis, seus corpos nus movendo-se em sintonia.
Eles seriam perfeitos juntos. Marissa sabia que o ato de amor de Edward seria uma coisa estupenda.
Queria, com desespero, que pudesse ir para a cama com ele, esquecer qualquer pretenso de um futuro e apenas aproveitar uma noite de esplndida paixo. Mas no podia.
Com um esforo, parou de fitar a cama e voltou-se para Edward. Respirou fundo, lutando contra a emoo que queimava seus olhos e fechava sua garganta.
 No posso dormir aqui, Edward. No posso fazer amor com voc, e quero tanto isso que chega a doer dentro de mim, porque j vai ser difcil esquec-lo, mesmo sem isso.
De repente, Marissa ficou brava. No com Edward. Nem consigo mesma. Mas com o destino.
 No era para ser assim!  ela exclamou.  No era para ser assim, de jeito nenhum!
Edward encarou-a, a confuso brilhando em suas pupilas.
 Do que est falando? O que no era para ser assim?
  Era para dar certo desta vez. Eu deveria saber no instante em que o encontrasse. Iria reconhec-lo, e ele tambm. E seria o comeo de alguma coisa duradoura e maravilhosa.  Marissa dizia a si mesma que no devia estar falando aquilo, mas no podia evitar. As palavras saam aos atropelos.  Isso no  justo. Acabou me conquistando, Edward. Achava at que nem gostava de voc, no comeo. E agora, descubro que estou apaixonada.
Pronto. Tinha dito. Em algum recanto no fundo de sua alma, floresceu a esperana de que, uma vez que trouxesse a verdade  tona, Edward a tomaria em seus braos e confessaria seu amor por ela.
No entanto, isso no aconteceu. Edward a olhou incrdulo e com um toque de horror visvel.
 Marissa, eu... eu... no sei.o que dizer!
O laivo de confiana teve uma morte rpida e dolorosa.
 No precisa, Edward. Sua dvida, sua hesitao j me diz tudo.
Marissa saiu do quarto e seguiu o corredor, com Edward correndo atrs dela.
  Marissa,  claro que est enganada!  gritou.  Ns passamos muito tempo juntos, e talvez voc esteja apenas solitria, e seja conveniente, s isso.
Marissa o encarou quando alcanaram a sala,
  Gostaria que fosse assim, Edward. Todavia, o que sinto no tem nada a ver com minha solido. No se trata de loucura de frias.  Engoliu seco.  Edward, estou apaixonada por voc.
  Mas ns nos conhecemos h uma semana!
- Sei muito bem disso.  Marissa estava confusa e exausta.  E uma loucura... Voc no tem nada a ver com meu prncipe encantado!
  Sou mal-humorado.
Ela assentiu com um movimento de cabea.
  E teimoso.
  No escolhi ser assim, Marissa.
 Voc  um mal-educado, e no posso explicar por que te amo.  a ltima pessoa na face da terra que eu*escolheria para mim, Edward. Mas aconteceu.  A voz dela estava carregada com a absoluta certeza do que dizia.
Ele a estudou por minutos, e no fundo de suas ris azuis, Marissa pensou ter visto uma batalha sendo travada. Uma batalha que ela no entendia.
 Nunca poderia dar certo  disse Edward, por fim. E naquela frase, a esperana renovou-se em Marissa.
  O que nunca poderia dar certo?  quis saber, o corao aos pulos.
 Ns. Qualquer tipo de futuro para ns.  Edward falou aquilo devagar, ponderando, e, quando olhou para ela, Marissa viu um grande carinho em sua expresso.
Seria possvel? Ser que ele tambm fora pego de surpresa? Podia ser que Edward tivesse se apaixonado por ela?
Marissa deu um passo em direco a ele, imaginando se o ritmo frentico do sangue em suas veias poderia ser ouvido. Um intenso fluxo de adrenalina corria, preenchendo cada fibra de seu ser.
 Edward?  Ficou to perto dele, que podia sentir o calor de seu corpo.  Por que no podemos ter um futuro juntos? Porque voc no me ama?  isso?
Os olhos dele escureceram e recusaram-se a encontrar os dela.
  Porque somos errados um para o outro. Edward no dissera que no a amava. A alegria tomou conta de Marissa. Conhecia Edward o suficiente para saber que ele no pouparia palavras se no a amasse. Diria isso diretamente. Porm, no o fizera. Marissa ps as mos no rosto dele, forando-o a encar-la.
  Diga-me mais uma vez por que somos errados um para o outro. Acho que no entendi.
De novo, uma mistura de emoes se infiltrou atravs das feies dele.
 Marissa...  Edward soltou-se dela e se afastou um pouco. Passou os dedos por entre os cabelos, titubeante.  Creio que estamos confundindo atrao sexual com amor.
  No. Conheo bem a diferena entre essas duas coisas. Sei que quero voc, que desejo que me beije at minha cabea girar, e que me acaricie at que eu no possa mais raciocinar. Sei que tenho atrao fsica por voc. Contudo, tambm tenho total conscincia de que quero dividir suas risadas, suas tristezas, compartilhar uma vida. E isso no  atrao sexual. Isso  amor. Estaria delirando ou via relutncia nas feies dele?
  Marissa, no posso ser seu prncipe encantado. Voc me falou que esse seu prncipe teria esperanas e sonhos. E eu no tenho nenhum dos dois. Merece um homem que acredite nisso.
  Mas voc no  assim, Edward.
Marissa acariciou-lhe o queixo, adorando o modo como a cor dos olhos dele refletiam seus nimos vvidos tornando-se de um profundo azul e confuso, e ela no soube dizer se Edward estava, de propsito, bancando cego ou se no acreditava mesmo no homem que era.
 Voc me enganou no comeo com toda essa conversa cnica e um exterior rabugento.  Marissa aproximou-se e levou-o pela mo at o quarto de Bobby. Abriu a porta e, com esforo, fez com que Edward entrasse no aposento do menino.  Aqui esto sua esperana e seus sonhos.
Edward tornou a soltar-se dela, com a raiva faiscando nos olhos.
  Voc no sabe o que est falando!  Procurou conter a entonao por ver que Nathaniel continuava dormindo.
Edward passou por ela, dirigindo-se  sala, e Marissa, rpida, o seguiu.
  Edward, suas esperanas moram naquele quarto. Um homem sem sonhos e sem esperana no corao no mantm um dormitrio como aquele. No  uma obsesso doentia que faz com que voc compre presentes para Bobby nos aniversrios dele. E a esperana!
Edward foi at a janela e parou, de costas para Marissa. Ela prendeu a respirao, esperando que o que dissera tivesse penetrado a alma dele, rezando para que ele reconhecesse o homem que era, e no aquele que declarava ser.
Quando Edward se virou para olh-la, qualquer luz que estivera nas pupilas dele tinha desaparecido, e seu semblante revelava uma desesperana tal que quase a fez chorar.
  Aquilo no  isso, Marissa.  Edward apontou para o corredor, em direo ao quarto de Bobby.   reparao.
 Reparao? Mas do que voc se sente culpado? 
Um tormento puro e poderoso irradiou-se dele, e Marissa lutou contra o impulso de abra-lo e tentar aliviar sua dor. Permaneceu onde estava, a necessidade de confort-lo doendo dentro dela.
 Eu deveria ter me esforado mais para amar Sherry. Talvez as coisas tivessem sido diferentes. Devia ter trabalhado mais duro, ter sido bom o bastante como detetive para achar Bobby.  0 remorso o espezinhava.  No sei o que fiz, mas devo ter feito alguma coisa para perder Bobby. Ento, o destino decidiu que eu no merecia ser pai.
 O destino no decidiu isso! Sherry decidiu. E voc fez tudo o que podia para encontrar seu filho. No foi culpa sua que a mulher com quem voc se envolveu era insensvel.
Edward assentiu e suspirou.
 No importa. Mesmo se eu fosse bom o bastante para ficar com voc, Nate merece mais do que posso lhe oferecer.
Marissa pensou em seu filho. Com que facilidade ele aceitara Edward, com que naturalidade o chamava de papai...
 Nathaniel se apaixonou por voc, antes de mim, Edward. E voc sabe o que dizem das criancinhas e dos animais? Eles, por instinto, conhecem a verdadeira natureza de uma pessoa.
 No adianta, Marissa.  Havia um tom terrvel de finalizao em sua voz.
Edward andou at ela e tocou-lhe a face. Um toque que doeu dentro de Marissa quando viu a ausncia total de alegria nele.
 V para casa, Marissa. Volte para o Kansas e ache sua alma gmea. Encontre um sujeito que possa compartilhar seu entusiasmo pela existncia, sua enorme f no amor e na felicidade.
Afastou os dedos do rosto dela e deu-lhe as costas, fazendo-a sentir-se mais infeliz do que jamais se estivera.
A coisa mais difcil que Edward j decidira at ento fora olhar nas profundezas de seus olhos verdes, tocar sua pele macia e dar-lhe as costas depois de ela ter lhe oferecido seu amor com tanta honestidade.
Como uma queda na praia pudera transformar seus dias pacatos numa confuso emocional to grande? Como sua vida simples tornara-se to complicada?
Edward soubera, desde o comeo, que Marissa no era o tipo de mulher para ser uma deliciosa amante de uma nica noite. Reconhecera seu brilho enrgico no momento em que tropeara em seu filho. Sendo assim, por que no fugira correndo naquela hora?
Porque no podia correr. Nathaniel quebrara-lhe a perna.
O humor de seus pensamentos no fez nada para levantar seu nimo. Pressentia o olhar de Marissa a suas costas. Controlando-se, virou-se para encar-la.
Edward sabia que a luz das pupilas de Marissa permaneceria presente ainda por muito tempo. Mas tambm estava ciente, com toda a certeza, de que no era o prncipe dela, que jamais poderia ser o homem que ela merecia.
 Ento  isso, Edward. Est decidido a continuar sendo uma vtima do destino.
 Nada disso. Sou realista, Marissa. E eu arruinaria voc se fizesse parte de seu futuro.
Ela o fitou com muita ateno. Em seguida, pegou sua bolsa no sof.
  Vou buscar Nathaniel e iremos embora.  Virou-se e desapareceu no corredor.
Edward exalou um suspiro aliviado. Se Marissa permanecesse parada ali mais um minuto, com aqueles olhos cheios de amor, ele poderia ter feito alguma bobagem. Talvez tivesse mergulhado nas fantasias, nos sonhos que Marissa professava.
Ela reapareceu pouco depois, com Nathaniel adormecido no colo,
  Suponho que seja um adeus.
 Acho que sim.  Por um longo momento, Edward olhou fixo para ela, memorizando as feies de seu rosto, as sardas danantes em seu nariz, a teimosia estampada era seu queixo erguido, aquelas lindas ris que cintilavam com tanta intensidade.
Se pelo menos ela se contentasse com paixo, com sexo... Se ao menos estivesse disposta a dormir com ele sem compromisso, sem aquela baguna de emoes, sem o elo do amor!
Amor e suas expectativas. Expectativas que ele no poderia preencher.
 Espero que tudo d certo para voc, Edward.  Marissa dirigiu-se  sada.  Tomara que voc ache Bobby e que construam uma relao maravilhosa.
Antes que ele pudesse responder, ela saiu.
Edward teve vontade de correr atrs dela e cham-la de volta. Mas lutou contra o impulso, sabendo que aquilo levaria apenas a uma eventual mgoa. 
Assim, retornou ao deque, com a cabea girando, por saber que Marissa o amava.
Como aquilo era possvel? De que forma uma mulher igual a ela podia ter se apaixonado por ele?
O destino, sem dvida, tinha um incrvel senso de humor. Um doentio e pattico senso de humor, para ser mais preciso. E a parte mais doentia de todas era que Edward amava Marissa acima de tudo.
Cerrou as plpebras e deixou aquele amor tomar conta de seu ser. Adorava o jeito da pele dela se arrepiar ao toque de seus dedos, a suavidade de seus cabelos. Porm, seu amor ia alm dos desejos da carne. Adorava seu bom humor, sua inteligncia, a gentileza de seu esprito, a franqueza de seu carter, a bondade de seu corao.
Mas se seguisse seus sentimentos, se permitisse que eles vivessem um relacionamento, quanto iria demorar para Marissa perder o otimismo que guiava seu caminho? Quanto levaria at que os olhos dela perdessem o brilho, atravs do peso de conviver com o cinismo dele?
E quanto a Nathaniel? O menino merecia um pai que fosse inteiro, um homem de peito aberto. Edward no tinha nada disso.
Observou as ondas que se quebravam na praia. No, era melhor daquela forma. Marissa estaria muito melhor sem ele. Logo, acharia seu consorte, um rapaz que acreditasse nas mesmas coisas que ela, que pudesse amar Nathaniel sem ressentimentos de um passado sofrido.
Franziu a testa quando ouviu seu corao pulsando em um ritmo que nunca ouvira antes. Edward acabou reconhecendo que aquilo era arrependimento.


CAPTULO X

Marissa tentou aproveitar o resto de suas frias, mas dois dias depois que sara da casa de Edward, deu-se conta de que no era capaz disso.
O pr-do-sol da Flrida fazia-a lembrar-se do calor dos beijos de Edward, e o cu azul trazia-lhe os olhos dele  memria.
No barulho das ondas do mar, ouvia sua voz, a batida de seu corao. Marissa sabia que tinha de sair de Mason Bridge e esquecer aquela viagem.
Precisava voltar para o hospital e preencher seus dias com bastante trabalho para cair na cama  noite, muito exausta para sonhar.
Nathaniel tambm estava triste, choro e agitado, e Marissa se perguntava se seu filho, de alguma maneira, percebia sua dor, ou talvez sentisse a falta de Edward e externava sua prpria mgoa.
Trs dias depois que parara de ver Edward, Nathaniel e Marissa pegaram um avio de volta para o Kansas. Ela agradeceu por seu filho ter dormido assim que a aeronave decolou.
Marissa ficou olhando pela janela, com um profundo aperto em seu peito. A coisa mais difcil de aceitar era que Edward a amava, mas escolhera dar as costas ao que sentia.
Teria sido maravilhoso se o sentimento dela tivesse sido suficiente para curar as feridas deixadas por Sherry e Bobby, mas, pelo visto, suas cicatrizes eram muito profundas para alcanarem a cura.
Se Edward, pelo menos, tivesse sido capaz de ver que necessitava amar e ser amado, que acreditar em felicidade no era fraqueza ou defeito, mas sim fora a ser invejada...
Era fcil crer em final feliz quando tudo estava indo bem. O verdadeiro teste de f era crer em felicidade quando as coisas tinham dado errado.
Lgrimas relutantes acumulavam-se nos olhos de Marissa. Recusava-se a chorar por Edward Coffey. Nos ltimos trs dias, conseguira no derramar uma lgrima sequer, e no faria isso agora.
Disse a si mesma que no valia a pena sofrer por Edward Coffey. Um homem que escolhera o caminho do sofrimento em sua vida no merecia a emoo de seu corao.
A av de Marissa esperava por eles no Aeroporto Internacional do Kansas. Com a viso da senhora magrinha de cabelos brancos, um relmpago de amor alastrou-se em Marissa.
Quando sua me morreu, Belle Wilson ps de lado sua prpria angstia pela morte da filha e abriu seu corao para as duas garotinhas deprimidas. Daquele momento em diante, Belle se tornou a fonte de fora, de conforto e de sabedoria para Marissa.
 Ah, a esto meus amores!  exclamou, quando Marissa e Nathaniel apareceram.
Belle tirou o beb do colo de Marissa e lhe deu beijos estalados no rostinho. Nathaniel riu e envolveu os braos em volta do pescoo da bisav.
 Voc est bem?  Olhou preocupada para a neta.
 Tudo em ordem, vov.  Marissa forou um sorriso.  Ns nos divertimos muito.  Pegou o carrinho para esperar a bagagem,
  Se estivessem se divertindo tanto, por que voltariam antes do prazo?  Belle observou com ateno os olhos de Marissa, como quem estivesse tentando descobrir a verdade.
Marissa deu de ombros.
 Ns nos cansamos de descansar. S isso. Pegamos praia o suficiente, e eu j estava pronta para voltar.
Belle encarou a neta por um longo tempo, ento torceu o nariz, duvidando de seus motivos.
  Suponho que voc vai me contar o que houve quando estiver pronta.
 No h nada para contar, vov  protestou Marissa, mas suas palavras soavam falsas at mesmo para seus prprios ouvidos.
Levou quase vinte minutos para pegarem as bagagens e acomodarem tudo no carro de Belle. Enfim, viram-se a caminho da pequena casa de Marissa.
Quando estavam na estrada que levava ao norte do subrbio onde Marissa morava, Edward mais uma vez lhe veio  mente.
O que ele estaria fazendo naquele minuto? Sentira a falta dela? Ser que, de alguma maneira, Marissa havia mexido com ele?
E a maior pergunta de todas: quanto demoraria at que ela pudesse esquec-lo por completo? Seria capaz de esquec-lo algum dia?
 Ento, voc quer falar sobre isso?  Belle quebrou o silncio que enchia o automvel.
 O que a faz ter tanta certeza de que existe alguma coisa para ser dita?
Belle sorriu.
  Conheo minha menina, e vejo sombras nesses olhos que no existiam antes de voc sair daqui.
Marissa fitou a paisagem, incerta se estava pronta para falar de Edward. At mesmo o nome dele evocava uma dor incrvel dentro dela. Virou-se para olhar sua av.
 Quando conheceu vov, foi amor  primeira vista?
 Oh, meu Deus, no!  Belle gargalhou.  Quando o conheci, achei que ele era o sujeito mais arrogante do mundo.
Sua risada passou para um sorriso suave.
 Mas em nosso terceiro encontro, soube que o queria para mim, e para sempre.
Marissa fez um esgar.
  Sempre acreditei que, quando eu encontrasse o homem certo para mim, saberia no mesmo instante, e seria uma coisa mtua.
  uma bonita fantasia, filha, mas, se isso fosse verdade, ns no teramos canes sobre coraes partidos e amores no correspondidos.
Marissa suspirou.
 Acho que isso  verdade...
 Ento,  disso que se trata? De um corao partido?  perguntou Belle, sempre muito carinhosa.
Lgrimas queimavam os olhos de Marissa, ao assentir com um movimento de cabea.
 Algum surfista bonito se aproveitou de voc?
 No, nada disso, vov.  Um sorrisinho curvou os lbios de Marissa.  Na verdade, Nathaniel quebrou a perna dele.
  O qu?!  Belle estacionou na porta da casa alugada.
 Vamos entrar, vov. Eu farei um caf.

Quinze minutos depois, com Nathaniel sentado, feliz, em seu cadeiro familiar e um grande bule em frente as duas, Marissa contou a Belle sobre Edward.
Narrou sobre o destino do primeiro encontro e das leses de Edward. Do subsequente tempo passado juntos e sobre o que acontecera ao filho dele.
Marissa esperava que, falando tudo, acabaria vendo quo absurdo era ter se apaixonado por Edward to rpido, e de modo to devastador. Contudo, desabafar no diminuiu sua tristeza. Pelo contrrio, intensificou-a.
  Eu sei que  loucura, vov. Eu o conhecia fazia dias...
Belle esboou um sorriso suave.
  O amor no conhece limites de tempo e espao, amorzinho. O amor pode acontecer num piscar de olhos, numa batida do corao, ou pode crescer, pouco a pouco, com o passar dos anos e as experincias divididas.
  A situao  mais difcil de aceitar porque sei que Edward se apaixonou por mim tambm.  Marissa fez uma pausa, recordando seus beijos, o carinho no olhar dele em momentos estranhos quando estavam juntos.  Mas ele teve medo de confiar nisso. Temeu de confiar no amor.
Belle acariciou a mo da neta.
  Querida,  complicadssimo conseguir transformar num crente algum que perdeu toda sua f, como esse Edward.
Marissa concordou. Sabia que o que sua av falava era certo. E disse a si mesma que estava melhor sem Edward.
Ainda assim, desejava com todo o ardor que sua alma ouvisse a voz da razo.
Durante quatro dias, Edward andou de um lado para o outro, em sua casa, como um prisioneiro enclausurado. Seu humor era pior do que o de um urso velho cuja hibernao tivesse sido perturbada.
Sabia que fizera a coisa certa mandando Marissa e Nathaniel embora, mas no podia tirar o arrependimento de dentro de si.
Apesar de ter partido, a presena dela permanecia em cada cmodo. O som da risada de Marissa tocava em seus ouvidos, quando ele se servia do desjejum. A viso de sua fisionomia sempre alegre danava diante de seus olhos quando ele preparava seu almoo. Imaginava o aroma dela cada vez que se virava na cama,  noite.
E no era apenas Marissa que o perseguia. Era Nathaniel, tambm. Os grandes olhos azuis do menininho e o sorriso encantador recusavam-se a sair da memria de Edward.
Quando eles fizeram a vigilncia de Samuel e Nathaniel adormecera em seu colo, Edward fora preenchido com uma paz interior que no experimentava desde que Bobby era pequeno.
Naquele instante, estava em p no deque, com uma xcara na mo, e, enquanto assistia ao nascer da luz do sol da manh, imagens de Marissa e Nathaniel demoravam-se em deix-lo, invadindo-o com uma solido dolorosa que nunca experimentara antes.
Jamais poderia recuperar os anos perdidos com Bobby. Mesmo se Brbara Klein ligasse no dia seguinte e conseguisse arranjar uma reunio entre ele e o filho, os cinco anos anteriores estariam perdidos para sempre.
Era mesmo estranho que Nathaniel tivesse a mesma idade de Bobby quando Sherry o levara consigo. Era quase como se o destino tivesse lhe dando uma segunda chance de ser pai de uma criana carente.
E havia Marissa. Ela no era a segunda chance no amor. Era a primeira mulher que o tocara de maneira to profunda, com tanta emoo, com... amor.
Edward tomou seu caf e observou uma gaivota mergulhar na gua e, um segundo depois, decolar para o cu. Aquilo era o que Marissa fizera com ele. Ela o tirara das profundezas de sua melancolia e o deixara no ar, incerto de onde a esperana o provocava, de onde os sonhos podiam alcan-lo.
E isso o apavorava at a morte.
Uma vtima da existncia ou um sobrevivente? A questo que ela lanara, girava em seu ntimo.
Virou-se ao ouvir o toque da campainha. Foi para a porta e abriu-a para Maria.
  No  seu dia de faxina hoje, ?
 No, Edward, mas vim lhe dizer que no poderei trabalhar na semana que vem.  Maria passou por ele, a fisionomia cintilando de felicidade.
  Por que no?  Edward a seguiu.
Maria sentou-se no sof com a pose de uma rainha.
 Porque meu marido e eu iremos para um cruzeiro no Caribe.
Edward sentou-se diante dela e encarou-a, incrdulo.
  Maria, eu j lhe disse antes. Esses voos promocionais que voc acha nos panfletos, para turismo barato, so uma fraude.
- Isso no  uma fraude, Edward.  As pupilas dela brilhavam de animao. Recostou-se, confortvel.  At que enfim, aconteceu.
  O que de to importante aconteceu!
 A loteria, Edward!  Maria tirou um bilhete da bolsa.  Sempre soube que um dia eu ganharia, e pronto! Cinco nmeros de seis. Dez mil dlares!
Ela pulou do sof e comeou a danar.
Apesar de seu mau humor, Edward pegou-se rindo. A excitao dela era contagiante, e ele sabia que ningum poderia usar to bem aquele dinheiro quanto Maria e seu marido.
Levantou-se e deu um forte abrao nela.
  Estou feliz por voc. Maria deu de ombros.
 No  nenhuma fortuna, mas vai ajudar bem. E quando voltarmos do cruzeiro, vou limpar sua casa de graa uma vez.
  No precisa fazer isso  Edward protestou, ao andarem em direo  sada.  Eu lhe pago o que voc vale. Na verdade, lhe pago mais do que voc vale  provocou-a.
Maria achou graa, e ento o encarou, sria.
  Ela  boa para voc, Edward. As sombras em seus olhos se amenizaram. A moa e o garotinho... so seu bilhete premiado.
Edward no se incomodou em falar para Maria que fora um idiota e jogara fora sua grande chance. Quando Maria acenou, despedindo-se, e se foi, o arrependimento mais uma vez apertou seu peito.
Vises de Marissa e Nathaniel desfilavam a sua frente sem parar, enchendo-o de uma sensao profunda do que poderia ter sido.
Vtima ou sobrevivente? As palavras de Marissa ecoavam em seu ntimo.
Ser que ficaria para sempre de luto, em vez de tentar abraar o que poderia ser um futuro maravilhoso? Permitiria que suas lembranas obstrussem qualquer possibilidade de felicidade futura?
Um sofrimento imenso o dominou quando pensou na vida sem Marissa.
Era o nico que podia decidir seu papel perante o destino. S ele tinha o controle de seus atos, e precisava decidir se queria permanecer sozinho com suas amarguras ou construir a felicidade com uma mulher e uma criana que amava.
De sbito, um medo imenso aflorou por todos os poros. Ser que tomara conscincia daquilo tarde demais?
Edward moveu-se o mais depressa que pde para a entrada da casa, a adrenalina fervendo dentro dele. Girou a maaneta e apoiou-se no corrimo da escada.
 Maria! Maria!
Ela j estava no carro e olhou para ele.
 Preciso que voc me faa um favor. A empregada lhe sorriu.
 Isso vai lhe custar algum dinheiro...
Edward achou graa, sentindo-se mais livre do que nunca.
 Confie em mim. O preo vai valer a pena.
 O sr. Johnson, no quarto 241, deseja v-la  Roberta Stamm, a enfermeira chefe, disse para Marissa.  Sei que voc j est pronta para ir embora, mas ser que poderia dar uma olhada nele antes de ir?
 Claro!  Marissa desceu o corredor do hospital para o quarto 241.
Aquele era seu primeiro dia de volta ao servio. Sua av tentara convenc-la a acabar as trs semanas de frias, mas Marissa quis voltar a trabalhar sem demora, aps retornar de Mason Bridge.
Precisava estar ao redor de pessoas que tivessem doenas genunas, que necessitavam de seu conforto e de suas habilidades. Desse modo, no ficaria to concentrada em seu prprio corao despedaado. Necessitava estar ocupada para no pensar em Edward Coffey.
E o dia fora movimentadssmo. Entretanto, Marissa descobrira que no importava qual fosse sua tarefa, nem com quanto afinco se concentrasse em algo, os pensamentos sobre Edward invadiam sua cabea.
Entrou no quarto 241 e endereou ao senhor grisalho um amplo sorriso.
 Ol, sr. Johnson. A enfermeira Stamm disse que o senhor queria me ver.
 Preferia estar recebendo-a em minha casa  disse o homem, com tristeza.
 No vai demorar muito, e poder estar no aconchego de seu lar, fique tranquilo.
O sr. Johnson sofrera um grave caso de pneumonia, mas estava se recuperando.
 O que posso fazer pelo senhor?
 Voc ajeitou meus travesseiros muito bem esta manh, e eu queria que os posicionasse de novo.  Johnson sentou-se, indicando os travesseiros achatados atrs de sua cabea.
 Com prazer.  Marissa fez o que o paciente pediu e o acomodou.  Pronto. Veja se est bom assim.
O sr. Johnson recostou-se e fechou os olhos.
 Muito melhor.  Ergueu as plpebras e ofereceu a ela um sorriso tmido.
 Vou para casa agora, sr. Johnson, mas Polly Manson estar de planto esta noite, e poder auxili-lo no que for preciso.
Ele assentiu.
 Tenha uma boa noite, Srta. Criswell. Eu tambm gostaria de estar indo para casa.
Ela riu.
  O senhor ir, e antes mesmo que perceba.  Com uma despedida, Marissa saiu do dormitrio e dirigiu-se para a sala das enfermeiras, onde apanhou sua bolsa e bateu o ponto.
J estava com medo das horas que teria de enfrentar. Nathaniel andava agitado demais. Se no estivesse enganada, ele sentia a falta de Edward tanto quanto ela.
 Marissa Criswell, comparea  sala de emergncias, agora mesmo.
Marissa congelou. Por uma momento a voz no alto-falante do hospital pareceu ser de Edward. Mas aquilo era impossvel. Ele estava na Flrida. Alm do mais, Edward mandara tanto ela quanto seu amor para bem longe.
Correu para o elevador pensando se iriam pedir para que dobrasse o turno. Embora costumasse tentar ajudar quando o hospital estava com poucos funcionrios, no pretendia, de jeito nenhum, fazer hora extra naquela ocasio.
Desde que voltara de viagem, sentia-se muito cansada, e sabia, bem l no fundo, que aquilo era um aviso de depresso. Sentia saudade de Edward.
Tempo, ela se fez lembrar. Apenas o tempo poderia curar aquelas feridas abertas em seu ntimo.
Chegando  sala de espera, ouviu vozes alteradas vindas da sala de emergncia.
 Senhor, no se pode usar o sistema de microfone do hospital para propsitos pessoais!
Marissa reconheceu que quem falava era Nancy Noland, uma das enfermeiras da emergncia.
 Isso  uma questo de vida ou morte, moa. Por favor, me deixe usar o microfone de novo!
Marissa congelou. Edward! Ningum mais tinha aquele tom profundo de exasperao. Ningum mais soava to mal-humorado.
O que ele estaria fazendo l? Por que viera?
Marissa respirou fundo e, tremendo, abriu a porta. L estava Edward, em p, com o costumeiro cenho franzido.
Edward...
A perna dele ainda estava engessada, seus dedos, enfaixados, e ele mostrava uma expresso rebelde de determinao.
 Olhe, deixe-me cham-la s mais uma vez, sim?  Edward pediu.
Uma mancha vermelha de frustrao coloriu as faces de Nancy.
 Por que voc no se senta e relaxa?
 No posso relaxar, moa.
 Edward?  Marissa murmurou, sem saber ao certo quem estava mais feliz em v-la, se Edward ou Nancy.
 Marissa, graas a Deus!  Ele avanou em sua direo, e Marissa percebeu que os dois viraram o foco das atenes de todos os ali presentes.
  O que... o que est fazendo aqui?  ela quis saber, a viso dele fazendo-a sofrer o indizvel.
Edward observou as carrancas das pessoas em volta, e ento encarou Marissa.
 Tem ideia de quantos hospitais h no Kansas?
 No sei de cabea  respondeu ela, ainda tonta por v-lo ali.
  So milhes, e eu passei o dia todo de ontem e hoje tambm, tentando descobrir onde voc trabalhava.
 Como chegou aqui?
 Maria me levou ao aeroporto, e eu peguei o avio. E, desde que pus os ps no Kansas, tomei uma dzia de txis tentando ach-la.
 Mas por qu?
Marissa no estava querendo acreditar. No queria antecipar a razo da presena de Edward. Talvez ele estivesse l investigando algum caso e s quisesse dar uma passada para dizer "ol".
Edward tornou a fitar os demais, que pareciam muito interessados na conversa deles. Segurando o brao de Marissa, empurrou-a pela porta e saiu do hospital, para o sol do fim de tarde. Encarou-a por vrios minutos, antes de falar:
 Quando voc partiu, levou algo meu.
Ela o fitou, incrdula. Ser que ele achava que havia roubado algo? Uma sensao de horror a percorreu. E Edward era teimoso o suficiente para ca-la como uma criminosa!
  E o que exatamente voc acha que eu roubei? Uma mala cheia de embalagens descartveis de comida?  indagou, por entre os dentes.
As sobrancelhas dele se arquearam de surpresa, e Edward riu, e sua gargalhada envolveu Marissa. Deslizou os dedos atravs dos cabelos, deixando-os bagunados, daquele seu jeito charmoso.
  Eu me expressei mal.  Edward pegou a mo dela entre as suas, e a olhou no fundo dos olhos.  Marissa, queria que voc fosse uma aventura passageira, que tivesse ido embora sem fazer tempestade.
  Sei disso.
A mo dele em volta de Marissa aquecia-a de um modo delicioso.
Edward soltou-a e, mais uma vez, passou os dedos por entre os fios escuros.
 Voc armou uma tempestade em minha vida! Colocou tudo de cabea para baixo. Ento, resolveu partir, e com isso levou junto minha descrena, meu cinismo e meu corao.
Desde o primeiro minuto que o vira, Marissa se permitira a alegria de uma pequena esperana.
Edward se moveu como se no pudesse mais se aguentar em p.
 "Vtima ou sobrevivente?" Isso foi o que voc me perguntou na ltima noite em que estivemos juntos, Marissa. Tenho bancado a vtima pelos ltimos cinco anos. Mas no sou mais. De alguma maneira, me tornei um sobrevivente que chafurdava na escurido e emergiu para a luz, acreditando que a felicidade  possvel... que ns somos possveis.
Ele teve de gritar as ltimas palavras, sob o barulho da ambulncia que estacionara ao lado de onde estavam.
  Ns?  Marissa sentia-se sem foras.
Ser que ouvira direito? Encarou Edward, que continuou a falar. Mas o que quer que ele estivesse dizendo, foi perdido por causa da sirene.
Edward se calou, e a ambulncia ficou silenciosa. Marissa e Edward assistiram aos dois paramdicos removendo uma mulher grisalha, em uma maca, que reclamava:
  Falei para ele que eram apenas dores de gases. No se trata de problema cardaco. Mas no acreditou em mim! Aquele cabea-dura nunca me ouve....
Edward virou-se para Marissa.
  Case-se comigo.
Ela arregalou os olhos, atnita.
 Como disse?  Imaginou se o rudo intenso havia danificado sua audio. Podia quase jurar que ele acabara de pedi-la em casamento.
A velhinha na maca fitou para Marissa.
  Se voc o ama, querida,  melhor dizer "sim", e rpido. A vida  curta e, antes que perceba, estar num hospital s porque comeu um hambrguer apimentado.  Antes que a senhora pudesse falar mais alguma coisa, os paramdicos empurraram a maca para dentro da sala de emergncia.
Marissa tornou a encarar Edward, zonza. Ele no lhe dera a chance de dizer uma slaba sequer. Pegou-a em seus braos, e ela pde sentir a batida do corao dele contra seus seios.
 Soube que voc significava problemas no momento em que a vi parada em cima de mim, na praia  disse ele, rouco.  Esses seus cachos dourados estavam brilhando ao sol, e v-la naquele biquini azul me fez,
por instantes, esquecer minha dor. Eu te amo, Marissa. E te quero. Preciso de voc a meu lado. Case-se comigo. Pelo amor de Deus, vai aceitar, no vai?!
Edward dissera que a amava, e as palavras mergulharam nas veias dela e ribombavam em seu peito. Mas ainda assim, hesitou.
Com enorme relutncia, afastou-se do abrao dele.
 Antes de responder-lhe, Edward, preciso saber de uma coisa.
Ele tremeu, diante da importncia da questo. O sol que at ento parecia to quente esfriava a face dela.
 Acha que tem capacidade de amar Nathaniel, que seu amor por meu beb ser por ele mesmo, e no para compensar a falta de Bobby?  Marissa sentia que ia chorar.  Nathaniel no pode ser a criana que voc perdeu. Seria um fardo muito pesado para meu filho.
Edward deu-lhe um sorriso carinhoso que a aqueceu por inteiro.
 Tenho de ser honesto com voc, Marissa. Sempre haver um espao dentro de mim que pertencer a Bobby. Mas h amor mais que suficiente para um pequeno exterminador especial que, aos dois anos de idade, foi capaz de quebrar minha perna. Eu amo Nathaniel.
Marissa no conseguiu falar. Lgrimas de felicidade umedeciam seus olhos e bloqueavam sua garganta. Riu e se jogou nos braos dele.
 Ei!  A velhinha que tinha saido da ambulncia gritou quando as portas da sala de emergncia se abriram.  Eu tenho de saber. Voc vai se casar com ele?
Edward a apertou mais, como se temesse o que Marissa iria dizer. Ela mirou firme o homem que amava.
 Sim, minha senhora. Vou me casar com ele.
Antes que Marissa pudesse dizer outra palavra, os lbios dele se apossaram dos seus.
O beijo foi pleno de paixo intensa misturada com um amor duradouro e todas as suas infinitas possibilidades e sonhos. O beijo envolvia calor, no apenas em seu toque fsico, mas dentro dela. E Marissa conhecia a certeza daquele momento. E daquele homem. E de seu futuro.
Marissa levou a palma da mo ao rosto dele.
  Ainda no posso acreditar que aquele que eu acreditava ser o mais errado tornou-se o meu prncipe encantado.
Edward tornou a rir, resplandecendo de alegria.
 Isso importa? O que interessa  que sou seu prncipe, e voc  minha princesa. E que vamos passar o resto de nossas vidas felizes para sempre.
De novo, as bocas se encontraram.
 Falando do exterminador, onde Nate est?
 Na escolinha.  Marissa consultou o relgio.  Preciso ir busc-lo.
 Ento, vamos. Caminharam at o carro dela.
 Sei que voc deve achar que eu sou louco. Mas ainda sou capaz de jurar que naquela primeira manha, na praia, no foi um mero acidente. Acredito que Nate me derrubou de propsito.
Marissa achou graa.
 Se isso  mesmo verdade, ento talvez tenhamos de agradecer a ele. Se meu beb no o tivesse derrubado, voc no teria passado de um atleta correndo na areia.
Edward inclinou-se e beijou-a no pescoo.
 Sim, lembre-me de comprar um presente fantstico para Nate.
Um prazer imenso dominou Marissa.
  Julgo que o melhor presente que poder dar a ele  voc mesmo, Edward.
Ele fitou-a, muito emocionado com o que escutou.
  Eu te amo, Marissa. E voc valeu uma perna quebrada. Agora, vamos buscar nosso filho.
Marissa saiu do hospital, de carro, em direo a seu final feliz.
Nathaniel estava deprimido. E aquele dia fora o pior de todos, porque tivera de encarar as atrevidas Claire e Julie na escola.
As duas o irritaram sem parar porque ele voltara das frias sem o pai que prometera trazer. Passara o tempo todo em um cantinho, quieto, brincando a ss e ignorando as garotas impertinentes.
Nathaniel no entendia por que no dera certo. Fizera tudo a seu alcance para tornar Edward seu pai. Sabia que sua me tambm gostara dele, e achava que Edward tinha gostado dela. Ento, no entendia por que os adultos complicavam tanto as coisas.
Nessa noite, Marissa iria estar to triste quanto ele. Ela tentava esconder isso, mas Nathaniel sabia que a me estava triste. Sentia saudade de papai Edward, assim como ele.
Ps um bloco azul em cima de um vermelho e pensou se teria tempo de construir alguma coisa at mame chegar.
 Ol, Nate.
A voz era profunda, familiar. Nathaniel olhou para cima e viu Edward e Marissa em p, com a Srta. Samantha.
Nathaniel levantou-se, to feliz que no cabia em si. Sua felicidade era maior do que quando tomava sorvete de morango. Maior do que ganhar um novo caminho de rodas de metal.
  Papai?  Deu um passo em direo a Edward, viu um sorriso amplo no rosto de sua me e soube que seu sonho tinha se realizado.
Edward abriu os braos, e Nathaniel correu para ele. De repente, o bebe se viu envolvido no forte abrao que o ergueu bem alto.
  Papai!  Nathaniel gritou, encantado.
  isso mesmo, garoto. Serei seu pai para sempre. Nathaniel colocou os bracinhos em volta do pescoo de Edward, gargalhando ao imaginar todas as coisas maravilhosas que eles compartilhariam. Edward enlaou Marissa.
 Vamos planejar nosso futuro.
Ao ser carregado por Edward para a sada, Nathaniel olhou por cima de seu ombro, para ver Julie e Claire, que assistiam  cena, estarrecidas.
Ele sorriu, e ento acenou, exultante, enquanto seu pai o carregava para fora da escolinha.


EPLOGO

Tem certeza de que estou bem?  Edward indagou a Marissa. 
 Meu amor, pela terceira vez, voc est lindo!  Sorriu para ele e deu um tapinha na cadeira a seu lado.  Venha sentar-se aqui e tente relaxar. A sra. Klein disse que demoraria alguns minutos.
Edward a obedeceu, tentando conter o batimento frentico de seu corao. Estavam em uma sala de conferncias em Miami, onde, em alguns minutos, Edward veria seu filho, Bobby, pela primeira vez em anos. Levara trs meses de negociaes, questes burocrticas e preenchimentos de formulrio aps formulrio. Mas, enfim, o dia que Edward no acreditara que poderia chegar chegara.
  E se Bobby no gostar de mim?  perguntou Edward, inseguro, encarando Marissa.
Ela sorriu e segurou a mo dele.
 Bobby vai am-lo assim como eu te amo. Assim como Nate ama voc.
Edward apertou os dedos dela e fechou os olhos, cheio de uma emoo muito grande para lidar.
Ele e Marissa tinham se casado um ms antes e estabilizado uma vida incrvel em Mason Bridge. Ela conseguira colocao no consultrio mdico de Edmund Hall, e Edward voltara a trabalhar na polcia. 
Todos os dias para Edward eram como um presente, e descobrira a profundidade de seu amor pela existncia e o fato encantador de que a vida o amava tambm.
Olhou para Nathaniel, que achara a caixa de brinquedos no fim da sala e estava ocupado cavando os contedos. Aquele menino era um bnus que a Providncia lhe dera. E o lao entre o garotinho e Edward tornara-se alguma coisa brilhante e forte.
Levantou-se, muito nervoso para permanecer sentado, e comeou a andar diante das cadeiras. E se Sherry, antes de sua morte, tivesse dito a Bobby que ele era um homem ruim? E se Bobby no quisesse saber dele?
Tudo o que Edward queria era a oportunidade de amar seu filho. A oportunidade de ser um bom pai para ele. Esperava, e rezava, para no decepcionar Bobby.
A porta se abriu e Brbara Klein entrou. Bem atrs dela, estava um menino de cabelos e sobrancelhas escuros. O corao de Edward pareceu parar de bater quando avistou seu filho.
  Bobby, este  o homem do qual eu estava lhe falando. E Edward Coffey.
 Ol.  Bobby esboou um sorriso tmido para Edward, que teve de lutar contra o impulso de pegar o menino e apert-lo contra o peito, de abra-lo to forte que nada ou ningum pudesse separ-los outra vez.
  Como vai?  Edward lutava com a emoo intensa que ameaava engoli-lo.
Ansioso, olhava para Bobby, memorizando cada uma de suas feies.
 Vou pegar uma xcara de caf  disse Brbara.
  Importa-se se eu e Nathaniel formos junto?  Marissa se ergueu.
  Claro que no. Venha.
Edward olhou para sua mulher, em pnico. Ela sorriu.
 Voc precisa de um tempo sozinho com seu filho, querido.   .
Nas palavras dela, Edward reconheceu a verdade, e a amou mais ainda por Marissa saber do que ele precisava, dando-lhe algum tempo a ss com a criana que perdera, e agora conseguira reencontrar.
Um pouco depois, Marissa, Brbara e Nathaniel saram, deixando Edward com Bobby.
  Quer se sentar?  Edward apontou para uma cadeira.
Bobby deu de ombros.
 Tudo bem.  Acomodou-se, com Edward a seu lado. - A sra. Klein lhe contou quem eu sou?
Bobby fez que sim.
  Ela falou que voc  meu pai biolgico.
Pai biolgico... Aquilo parecia to frio, to impessoal!
 Sim, sou seu pai biolgico, Bobby, e tenho estado a sua procura, e rezado para encontr-lo, durante os ltimos cinco anos.
  Verdade?  Os olhos castanhos do menino encontraram os dele, e no olhar do filho Edward viu desconfiana e incerteza.
  Eu juro.  Edward colocou um brao em volta do espaldar da cadeira de Bobby, cuidadoso para no toc-lo, mas aproximando-se para sentir o cheiro de seu filho. To familiar...  Guardei um lugar em minha casa reservado para voc por todo esse tempo. A cada aniversrio seu eu lhe compro um presente, e no Natal, adquiro alguma coisa que acho que voc gostaria de me dar.
 Voc fez isso?! Onde mora?
 Numa cidadezinha, a mais ou menos quatro horas daqui, chamada Mason Bridge. Minha casa  bem na praia e, quando voc era pequeno, eu o sentava no deque e o balanava. O barulho das ondas o fazia dormir. Bobby franziu o cenho, pensativo.
 Acho que lembro disso.
Edward queria, mais que tudo, pegar o garoto nos braos e sentir seu calor. Mas sabia que ganhar a confiana de Bobby levaria tempo, e que teria de reconquistar o amor de seu filho.
 A moa que estava aqui com voc  sua mulher? 
 Sim. E ela tem um filho chamado Nate, que tem dois anos.
Bobby pensou por um momento.
  E ns vamos morar todos juntos?
 Isso mesmo. Bobby, sei que tudo isso  muito novo para voc, mas quero lhe dizer uma coisa. Eu te amo. Te amei durante cada dia, desde seu nascimento. E se voc nos der uma chance, acho que poderemos nos dar muito bem, os quatro. Vai nos dar essa oportunidade?
Edward prendeu a respirao, com medo dos dias, das semanas, dos anos perdidos. Seria tarde demais?
Sabia que, para uma criana, um dia podia parecer uma existncia inteira. Ser que muitas vidas inteiras j tinham se passado para seu filho?
Bobby o encarou e, por trs das dvidas, atrs da auto-proteo, Edward viu um menino carente, com os olhinhos cheios de esperana.
Tempo e amor. Edward sabia que aqueles eram os dois ingredientes que afastariam a suspeita, que destruiriam a concha defensiva que Bobby criara para se preservar. Tempo e amor. E Edward tinha muito de ambos.
 O que me diz? Quer nos dar uma chance?  Edward segurou a mo dele.
Bobby ficou sentado, imvel, por um longo momento, e ento apertou os dedos de seu pai.
 Est bem.
Edward sentiu .como se o mundo tivesse parado de girar, recomeando apenas no momento em que Bobby concordou.
Um minuto depois, ele e o menino saram da sala de conferncias e viram Marissa e Nathaniel sentados,  espera.
Marissa levantou-se com uma fisionomia preocupada, e Edward nunca a amara mais do que naquele momento.
Ela era a mantenedora de seus sonhos, de seu corao e de sua alma. Sorriu para sua mulher, e a viu relaxar.
 Bobby est pronto irmos para casa agora  afirmou Edward.
Marissa sentiu que ia chorar de alegria.
 Isso  maravilhoso!
Naquele momento, Nathaniel andou at Bobby e envolveu-o com seus bracinhos.
Amigo!  Nathaniel e sorriu para Marissa e Edward.
 Acho que isso significa que Nate vai gostar de t-lo como irmo.  Marissa enxugou uma lgrima.
 Imo!  Nathaniel riu e bateu palmas, satisfeito por sua me t-lo entendido.
Um irmo mais velho! Era a coisa mais fantstica que j lhe acontecera. Alm de, claro, ganhar Edward como pai.
Ao se dirigirem os quatro at o automvel, Nathaniel pegou a mo de Bobby. Achou que seu irmo estava um pouco nervoso, e desejava poder dizer-lhe que tudo daria certo. Mas Nathaniel no tinha as palavras adultas para aquilo, ainda. Assim, fez a segunda melhor coisa: ofereceu a Bobby seu melhor sorriso.
Bobby sorriu tambm. S um pouquinho, mas foi o suficiente. Nathaniel sabia que demoraria ainda para Bobby descobrir que papai Edward era o melhor pai do mundo, mame Marissa, a melhor me que j existiu, e que ele pretendia ser o irmozinho mais incrvel que Bobby jamais poderia desejar.
Riu alto. Ah, sim, a vida era boa! No s conseguira o pai que sempre desejara, mas alguma coisa ainda mais especial: uma famlia!



                                                        F I M

